Maria soube envelhecer, o que é prova de inteligência. Aos meus olhos, tornou-se outra. Já não a primeira-dama que tinha uma empatia proporcional ao marido, mas uma mulher de carne e osso, uma mulher real, mais confiante do que alguma vez esteve, mais próxima da vida. Nunca gostei do que representava. Toda a minha adolescência foi gasta com Cavaco no poder, era o modelo perfeito do que eu não desejava para mim, do que abominava - um Salazar da democracia, como poderia a realidade ser tão perversa? Mas na celebração dos 40 anos da sua primeira tomada de posse como primeiro-ministro, dei comigo a pensar que talvez me fosse útil fazer um exame de consciência. Continuo a não gostar do que representou e do que é na sua essência - prefiro líderes como Soares, Sá Carneiro, Guterres ou mesmo Balsemão, só para falar dos dois partidos que formaram governos -, mas é justo escrever que Cavaco era um homem que respeitava a democracia e as instituições. Era implacável, frio e pouco empático, mas nunca enganou ninguém sobre o que era e para onde desejava ir. Quanto a Maria, envelheceu bem. Nota-se a passagem do tempo, mas naquele encontro de celebração escolheu um vestido vermelho-vivo que usou para ser vista, para ser notada, para ser fotografada. Sem medo das rugas, sem receio dos comentários, dos olhares, do julgamento das passadeiras. Escolheu aquele vermelho por querer aquele vermelho. Por desejar ser vista como está, como é, sem maquilhar a passagem do tempo. Surpreendeu-me e deixou-me a pensar.
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