Nasci numa casa oitocentista da velha Rua do Correio, a coisa de 50 metros da de Avis que ainda tinha o nome de Travessa da Fábrica. No lugar do edifício do Infante de Sagres, estava a Casa da Fábrica, mandada construir pelo rico comerciante Luís António dos Santos e Freitas e que, em operação de ilusionismo urbano, desapareceu até à última pedra. Enquanto crescia, assisti à construção da Praça Filipa de Lencastre e à abertura da Rua de Ceuta. O Porto vestiu assim roupagem nova e esqueceu a antiga Zona dos Lavadouros.
Nos meados do século XX, na esquina da Rua de Avis com a da Fábrica do Tabaco, o homem bom e prestimoso cidadão Manuel Camanho (descendente da família de emigrantes galegos que, no século XIX, fundaram um reputado café da Praça de D. Pedro), abriu uma notável livraria e editora. Dela saíram livros, manuais e materiais didácticos que procuravam arejar o sistema. Nos inícios dos anos 70, quando as reformas se vislumbravam, a Livraria Avis ficou ligada à inovação editorial que as mudanças pedagógicas exigiam - sem esquecer a sua vocação de loja de livros.
Tragada na voragem do despovoamento e destruição cívica, a Avis não resistiu à hecatombe que quase transformou o centro do Porto em terra-de-ninguém. Para mim, para quem o sítio é chão natal, passar pela esquina da Rua da Fábrica e ver a desolação em que se transformara a livraria do srenhor Camanho, era uma afronta. Até que, com o processo de reanimação da Baixa, a esquina se animou. Confesso que, quando vejo tapumes, operários e sinais de obras nas ruas do Porto, é como se me injectassem uma dose de esperança.
O autor escreve segundo a antiga ortografia
Professor e escritor

