Aquilo não é um ministério. É um mistério com escritórios e almas que neles penam. É uma confluência malparida, uma qualquer função corporal que colapsou à frente de todos. Um sítio de gente em apertos que foge para a casa de banho.
Aquilo só serve a coisa pública na estrita medida da chacota: e, ainda assim, é uma piada sem punch-line que só nos diverte por tristeza. A única sedução daquela mancha, de tal troça atirada à nossa cara, é o divertimento inconsciente que as moscas têm antes de tocarem nas lâmpadas que electrocutam. Perante o brilho, até nos entretemos, até nos encadeamos, mas ao chegarmos perto corta-se-nos a respiração.
Aquilo é um gabinete se o entendermos enquanto gabinete de curiosidades. E nós pagamos caro para ver as raposas velhas, a bicharada nova e as espécies indeterminadas. Quer dizer que é também um zoo - dos caros na admissão, e baratos nas atracções.
Aquilo não é um ministro. O que é? Um homem, uma pessoa, um sujeito. Nisso estamos de acordo. Um homem que se safa, uma pessoa que não se apresenta à gente amiga, um sujeito que tem má fama no bairro. Também é alguém, continuamos de acordo. Alguém que diz para desdizer o que disse quando não o disse daquela vez em que tinha dito o que vinha dizendo. Está tudo dito.
Não é pois um ministro. Quando não se é ministro mantendo as funções, há sempre quem cite Fernando Pessoa (que não tem culpa nenhuma), afirmando que estamos perante um "cadáver adiado que procria". Seria mais interessante, neste caso, o ministro ser um cadáver disparatado que assobia. Mas não vamos por aí. Galamba não é uma citação de Pessoa, mas é uma mó. Bem maciça, e atada ao pescoço do primeiro-ministro, que um belo dia mirou o abismo e disse: vem a mim, baby.
Um ministério assim desfeia os outros ministérios, os outros políticos, as pessoas que puramente, missionariamente, trabalham pelo bem-estar comum. Eu se fosse um bom profissional da causa pública - que os há neste governo - acrescentaria no currículo: "ministro não aparentado de Galamba". Ficavam claros os parentescos num país em que somos todos demasiado primos.
Enfim, acrescentar mais um desgoverno àquela equipa não faria qualquer diferença. Sugiro que nos transfiram uns euros de indemnização por MB WAY. Sempre cobririam simbolicamente os nossos danos morais. Íamos doridos para casa, mas um pouco mais conformados com a ideia triste de que um ministério do aquilo talvez seja o melhor que as Infra-estruturas têm para nos dar.
*Escritor
O autor escreve segundo a antiga ortografia

