Morre o escritor ao qual íamos buscar a imagem do que é um escritor. Morre o escritor inteiro e inevitável que fez uma língua própria, um pouco mais dele do que nossa. Quando penso na escrita de António Lobo Antunes, imagino um campo literário gravitacional que tudo puxa para si. Dito de outra forma: tal é a importância da sua escrita, que qualquer escritor contemporâneo se sente compelido a definir-se perante a sua obra.
Morre também um leitor extraordinário que sabia que a leitura é o combustível imprescindível da escrita. Um leitor obsessivo, interessado por tudo - inclusive pela literatura das novas gerações.
Tinha grandes paixões e grandes ódios no que dizia respeito à literatura. Um dia, quando lhe confessei a minha admiração por John Steinbeck, desprezou-o totalmente e contrapôs que os grandes escritores americanos eram os filhos de Maxwell Perkins.
Filhos belos e tortuosos, disse-me, com um entusiasmo um pouco malandro e adolescente. E apontou-me o volume da correspondência desse editor com Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e Thomas Wolfe. Tal era o entusiasmo, tal o sentimento de proximidade, que intimamente deveria considerar que entre esses escritores e ele não houvesse qualquer distância.

