Há uns meses, num dia irrepetível, esperemos, aprendemos quão difícil foi ficarmos sem conseguir falar uns com os outros, ter dinheiro físico para comprar bens essenciais, saber se as nossas crianças estavam na escola ou em casa, ou até ouvir notícias. Foi uma correria para comprar pilhas, rádios e lanternas. Mas a eletricidade voltou poucas horas depois (bem sei que pareceram uma eternidade), ao início da noite, para iluminar a maior parte do país e cedo nos esquecemos das pessoas que ficaram presas nos elevadores, ou nos comboios. Ficou distante o relato da aflição de quem contou as horas que sobravam a um gerador para garantir os cuidados em infraestruturas críticas de saúde ou de segurança. Rapidamente, reentramos na roda do rato, de ter tudo à mão de semear, de dar tudo por garantido. Ora, como dizia o padre que casou a minha amiga Ana, na Igreja de Meinedo, as pessoas são como as árvores, têm momentos frondosos na primavera e verão, e ficam esquálidas e feias no inverno, de galhos despidos. Nem sempre na mania, nem sempre na depressão, embora em algumas pessoas o rigor das temperaturas árticas pareça subsistir mais tempo. Esse dia do apagão foi um dia tempestuoso, de verdadeiro dezembro em abril, mas serviu para nos provar que o essencial, como dizia Saint-Exupéry, escapa todos os dias aos nossos olhos. Em datas de transição, como a de hoje, há que estabelecer a lista de prioridades do que queremos para os dias todos, de branda ou de inverneira. Nós e o Governo. Nós, nas áreas essenciais: família, amor (até o próprio), saúde, trabalho. O Governo, no que nos permite garantir o essencial do bem-estar e aberta a via rápida para o desenvolvimento nacional, a par do crescimento. O que o apagão nos lembrou, e que esquecemos num ligar e desligar de interruptor, é a importância de ser e estar presente.
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