Regresso ao chão natal, a Vitória (diluída numa geringonça traçada a Excel, por quem acha que juntar Cedofeita e Sé é escrever a História). E regresso evocando a tradição associativa que, no Centro Histórico do Porto, constituía o fermento solidário da convivialidade.
Pelas características do território, separado entre povo e burguesia pela "muralha" dos Clérigos, a Vitória não era freguesia com numerosas colectividades, mas ufanava-se de umas quantas, com destaque para a considerada mais antiga, o Clube de Futebol Operário, fundado em 1934 (a antiguidade era opção de classe em favor do operariado, porque o selectíssimo Clube Portuense nasceu muito antes).
Não deixa de ser contraditório o facto de, não havendo ali indústria, salvo residual, surgir um Clube Operário (e logo na Praça Carlos Alberto), com futebol, atletismo (onde brilhou, em 1953, Inácio Ribeiro, vencendo a Maratona Nacional), andebol, ciclismo, natação, basquetebol, voleibol, ping-pong, boxe e pesca. E mais: em espírito metropolitano, o Parque de Jogos ficava na Rua Visconde das Devesas, em Gaia!
E ainda mais: em 1955, comemorando o 21.º aniversário, o Operário realizou um festival, incluindo o desafio de futebol contra o Grupo Desportivo da Casa Sousa Lemos. (Nas casas comerciais de referência havia grupos desportivos e os lojistas da Rua do Almada fundariam até o Clube Ferro e Aço.)
Que tempos! Agora, no lugar das colectividades existem Alojamentos Locais, o que não teria mal algum, antes pelo contrário, se, por cada um, houvesse vinte habitações a preços acessíveis. E novas associações para animar os dias.
* Professor e escritor
O AUTOR ESCREVE SEGUNDO A ANTIGA ORTOGRAFIA
