Dizia meu pai (homem experiente): "Desde que vi um boi trepar por um pinheiro acima, já não me admiro de nada". Assim é. Neste país, o que pode ainda causar espanto? Mas, de repente, assalta-nos o espanto, quando o JN noticiou que alguém anda a fazer furos nos metrosideros da Avenida de Montevideu, talvez com o objectivo de os destruir, injectando-lhe um qualquer químico.
E veio-me à lembrança o jacarandá do Viriato, fantástico, inesquecível, que viu crescer a minha geração, florindo em azul: não estou convencido de que tenha morrido naturalmente (diziam alguns que as flores caíam sobre os carros e estragavam as pinturas, que era melhor a Câmara, etc.).
Os metrosideros, ou "árvores de fogo", oriundas das lonjuras do Oceano Pacífico, constituem verdadeiras marcas culturais exóticas na paisagem portuense, no Palácio, no Passeio Alegre e, sobretudo, na costa de Nevogilde, onde terão sido plantados quando construíram a esplanada, incluindo a fonte "Art Déco", inexcedível, do Arq. Manuel Marques. Venderam-me, há tempos, a ideia de que seria o maior ou um dos maiores conjuntos daquela espécie, na Europa. E também constou que os teriam querido arrancar, no Programa Polis, em 2001. Mas não afianço.
De qualquer modo, quando florescem, naquele vermelho intenso que os caracteriza, os metrosideros de Montevideu tornam-se num espaço arrebatador e inconfundível. A ser verdade o ataque que lhes preparam, oxalá cacem rapidamente a inteligência natural que o executa (é por isso que receio muito mais a acção destes terroristas de meia tigela do que a do Chat GPT, que tantos medos concita).
Professor e escritor

