A responsabilidade política de traçar a linha do horizonte da segunda volta das eleições presidenciais cabe a todos e responsabiliza a omissão política ou de carácter. Perante a opção que os portugueses democraticamente elegeram para as urnas no próximo dia 8, a escolha não se coloca entre Esquerda ou Direita, socialismo ou social-democracia, conservadores ou progressistas. Não se coloca, infelizmente, entre dois candidatos que frequentam o sistema democrático. A opção e a responsabilidade de cada um, responsáveis políticos de forma agravada, é a de tomar posição entre um candidato que defende a democracia e um outro que se serve dela. Não há nem pode haver contemplações sobre o colaboracionismo de quem não anunciar posição.
De forma absolutamente escusada e incompreensível, a posição de Luís Montenegro enterra o legado e a memória de Francisco Sá Carneiro, embora possa ser também entendida como uma tentativa de não permitir a chicana política da extrema-direita no Parlamento à volta do apoio do primeiro-ministro a um candidato da esfera política socialista. Mas não é isso que está em causa. Este tacticismo de Montenegro, admissível numa escolha, não pode colocar-se acima daquilo que é a linha de responsabilidade democrática de quem sabe o perigo que advém da normalização de alguém que usará essa omissão como arma de arremesso e abuso. Felizmente, a esmagadora maioria do PSD não se deixa seduzir pelo abraço do urso, como se viu pela demarcação imediata de boa parte das suas figuras de proa.
Não é uma escolha, é uma obrigação. Não há negociação ou transigência. A estabilidade e a decência não podem pecar por omissão, muito menos por parte de cada um dos candidatos que não passaram à segunda volta, sendo grotesco que qualquer deles, à Direita, não venha a admitir endereçar o seu voto a António José Seguro. Se é possível compreender que não se instrumentalize a noite eleitoral para endereçar o voto, já não é admissível que João Cotrim Figueiredo ou Gouveia e Melo se atemorizem nessa definição. Esse erro defini-los-á. Mariana Leitão conseguiu, sem surpresa, ser mais expedita do que Cotrim. Marques Mendes demorou quatro dias a perceber a gravidade do erro. Durante a campanha, Luís Montenegro será convidado a considerar o primado dos valores em detrimento de um tacticismo fúnebre. Não pode ser acusado de ser conivente com a barbárie política de um partido extremista que quer, desde a sua génese, matar o PSD.
O autor escreve segundo a antiga ortografia

