Maro, a cantora que levou "Saudade" à Eurovisão, cancelou a digressão deste mês alegando motivos de saúde mental. Está em burnout e precisa de descansar. Não é a primeira artista, desportista ou figura pública a assumir uma pausa por problemas psicológicos. E só é notícia porque o estigma da doença mental ainda leva muitos a encobrir a dor, a fingir que está tudo bem, a não procurar ou a não conseguir ajuda. A sofrer em silêncio.
Por cá, o diagnóstico está feito. Portugal apresenta taxas elevadas de perturbações psiquiátricas - é o segundo país com maior prevalência da Europa -, que afetam diretamente um quinto da população. Só a depressão corrói a vida de 700 mil portugueses. Num país em que escasseia o acesso a cuidados especializados, medica-se abundantemente: o consumo de antidepressivos e ansiolíticos é dos mais elevados na OCDE. O aumento do número de suicídios, que em 2021 foi o mais alto dos últimos quatro anos, é outro sintoma desta epidemia de doença mental.
Dois anos e meio de pandemia, oito meses de guerra e uma crise económica sem perspetivas de tréguas são a tripla ameaça que impende sobre as nossas cabeças. Se cada um desses fatores representa, por si só, um importante risco, o efeito conjugado dos três ainda está por determinar. É neste contexto que foi aprovada, na sexta-feira, a proposta do Governo para uma nova Lei da Saúde Mental. O diploma do Governo, que pretende substituir a legislação em vigor há cerca de 20 anos, teve votos favoráveis de todos os partidos, à exceção do Chega (que votou contra) e da IL (que se absteve). No debate parlamentar, às críticas da Oposição sobre a falta de meios e de uma estratégia de prevenção, o ministro da Saúde acenou com os 88 milhões com que o Governo pretende fazer, nos próximos quatro anos, a reforma da saúde mental.
O envelope financeiro é, sem dúvida, necessário numa área que tem sido parente pobre da Saúde. Principalmente se servir para apostar na prevenção e alargar a assistência a todos que dela precisem. Mas é preciso outra reforma - esta baseada em informação, sensibilidade e respeito - em cada lar, em cada escola, em cada empresa. Para que todos saibam (re)conhecer os insidiosos sinais da doença mental e ninguém tenha vergonha de reconhecer: "Não, não está tudo bem".
*Editora-executiva-adjunta

