Há um ligeiro equívoco de análise no que se vai escrevendo ou dizendo sobre Marcelo Rebelo de Sousa. Parece evidente para a bolha onde nos mexemos que o homem continua presidente, mas já não é presidente. Que a única coisa que nos resta é ajudá-lo a acabar o mandato da forma mais digna possível, que é a imagem de um derrotado, que a História o irá condenar a um ou dois rodapés. Quanto à História, deixemo-la à parte - ela mais os seus apóstolos e desígnios transcendem-nos tanto como a voz de Deus. Quanto ao resto, há um pequeníssimo equívoco acerca do qual urge conversar. Continua a não existir nenhum político que tenha sequer metade da proximidade que o presidente mantém com a maioria dos portugueses. Excluo Ramalho Eanes da equação, não o considero político e a sua virtualidade não está na proximidade, mas sim no exemplo. De resto, nada. Ver candidatos presidenciais a tentarem subir nas sondagens diabolizando Marcelo é meio caminho andado para criarem dúvidas à malta no momento decisivo do voto. O presidente cometeu erros, mas continua a não poder sair à rua sem ser abraçado, tocado, fotografado. E quando foi internado, quando pensámos que o podíamos perder, a reação foi semelhante à de um familiar que nos pregou uma partida sem aviso prévio. Não há nenhuma dúvida, como aliás já escrevi, de que teremos saudades deste homem que gosta de ser gostado, que gosta genuinamente das pessoas, sendo, paradoxalmente, um solitário rodeado de sombras e livros. No dia em que partir, sentir-me-ei um bocadinho órfão.
Leitura: 2 min

