Começar o ano com candidatos-fantasma não é para qualquer sistema eleitoral. Com a preocupação evidente de que não se confundam as eleições presidenciais portuguesas com um outro qualquer acto eleitoral no Burkina Faso, Nauru ou Kiribati onde a democracia não impera ou é tão frágil que até o boletim de voto é levado pelo vento, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) engrossou o número de candidatos à eleição presidencial do próximo dia 18, colocando no boletim de voto três candidaturas rejeitadas pelo Tribunal Constitucional. Não é anedota, é caricatura e verdade.
Alegando que não há prazo para imprimir novos boletins de voto de forma a que cheguem - em tempo útil - a embaixadas e a cidadãos detidos, a CNE limita-se a cumprir uma lei eleitoral com prazos absurdos e que há muito devia ter sido revista, mas não pode ficar a sobrevoar este simulacro no que respeita à fiscalização e garantia da legalidade das eleições, funções para as quais existe única e exclusivamente. Faltam duas semanas, mas qualquer humorista dirá que não parece haver um acordo com a gráfica ou uma avença com um expedidor de correios. Sem que se perceba como vai a CNE conseguir cumprir a impressão dos boletins de voto para a previsível segunda volta, quinze dias depois, este é o estado da arte eleitoral: nesta eleição vamos poder votar nulo em três candidatos.
Fazer cruzes. Apesar de uma bateria de candidatos apontar armas à CNE, não se pode dizer que muitos deles tenham chegado aqui com armas e sem bagagem. Desde que se permitiu o voto aos cidadãos portugueses no estrangeiro que a lei eleitoral deveria ter sido revista, nomeadamente quanto aos prazos, de forma a evitar todos os constrangimentos e absolutas perdas de tempo lesivas da democracia e da confiança que os cidadãos devem ter em eleições transparentes, livres e justas. Não há uma única eleição que corra sem problemas, em que as embaixadas não se queixem de boletins que não chegam ou que não são enviados aos destinatários. Duvido que no século XXI a questão se resolva com um franchising de empresas gráficas nas embaixadas e com fotocopiadoras robustas nas prisões. Mas que é uma visão deprimente da eficiência do Estado a cuidar de si mesmo, isso é.

