Recebi uma mensagem de voz, bem cedo. Era o Riccardo. O seu espanhol com forte sotaque italiano estava mais lento e sério que o habitual. A notícia era muito triste. Verónica, nossa colega de doutoramento, tinha falecido durante a noite em Santiago do Chile, no hospital onde há anos recebia tratamento oncológico. Deixa dois filhos pequenos e uma vida toda por viver. E nós, que não acompanhámos de perto a sua luta contra a doença (por estarmos a muitos milhares de quilómetros de distância), iremos sempre lembrá-la em toda a sua graça, beleza e energia.
Já não é a primeira amiga que parte cedo demais. Já não é a primeira pessoa que perco para o cancro. Mas o impacto destas notícias ganhou uma profundidade diferente desde que tenho um filho. A maternidade trouxe-me uma perceção mais real da mortalidade. (E se antes não queria morrer, agora sinto que não posso.)
Já não consigo andar num táxi sem cinto. Evito a todo o custo aventuras arriscadas, mesmo que seja apenas atravessar a rua fora da passadeira, e até voltei a fazer exercício três vezes por semana. Fico mais nervosa quando vou fazer análises ou exames de rotina e sinto um laivo de angústia quando entro num avião ou numa carrinha para viajar para longe do meu filho.
É que a vida é curta demais. Injusta demais. Sobretudo quando rouba a mãe de uma criança ou (mil vezes pior) a criança a uma mãe. E se só de pensar nisso já sinto o coração pesado como uma esponja mergulhada em água gelada, quando chega a notícia real, concreta, próxima, com rosto, nome e endereço é impossível não vergar mais um pouco ao peso da nossa esmagadora insignificância.
Nunca como hoje se pensou na vida tão preventivamente. Estamos na era da profilaxia da mortalidade. Temos cuidado com o que comemos, fazemos check-ups periódicos, há imensas campanhas de prevenção de doenças e de maus hábitos alimentares e o consumo do tabaco é cada vez mais demonizado e restringido. Atingimos a maior esperança média de vida da história e, como nunca, a longevidade é valorizada, talvez porque tentamos desbanalizar a morte a todo o custo, por (apesar de tudo) ela ser menos presente (ou pelo menos mais adiada).
Paradoxalmente, para poupar anos de vida, talvez nos privemos de vivê-la intensamente. Somos mais cautelosos e comedidos, calculamos riscos, evitamos excessos. E fazendo todo o sentido poupar anos de vida, quando alguém próximo parte assim, cedo demais, ocorre-me sempre que talvez esta nossa perspetiva economicista do tempo nos impeça de gastar mais em entusiasmo, em festa, em liberdade e em vida. É que afinal ela é tão curta e é tudo tão arbitrário. Não será este medo preventivo a derradeira burocratização do prazer?
Brindemos à vida, mesmo que sem excessos, e que toda esta profilaxia não nos impeça de aproveitar muito, porque mesmo que dure cem anos, a vida é sempre um ápice!
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