O arranque Seguro e a reforma laboral
Começou bem o trajeto de António José Seguro como presidente da República. Ao seu estilo, o novo chefe de Estado apresentou-se ao país com um discurso claro, objetivo e despretensioso. Em vez dos elogios gastos à gesta lusitana, optou por fazer um diagnóstico realista sobre os problemas que emperram o nosso desenvolvimento: o crescimento económico insuficiente, as desigualdades e a pobreza persistentes, o envelhecimento ou a fala de oportunidades para os jovens.
Como não lhe compete apontar soluções executivas para estas dificuldades, fez a pedagogia que se impunha e lembrou que as políticas públicas precisam de tempo para alcançar os resultados pretendidos e prometidos às pessoas. Tal não se compadece, como bem assinalou, com o "frenesim" eleitoral em que temos vivido nos últimos anos, com sucessivas legislaturas interrompidas e governos que decidem em funções de ciclos eleitorais cada vez mais curtos.
Esteve bem, por isso, a pedir sentido de responsabilidade e maturidade democrática aos líderes dos principais partidos políticos. Portugal precisa efetivamente de uma nova cultura de compromisso, que coloque o interesse nacional acima das querelas partidárias e das ambições pessoais. As instituições precisam de reconquistar a confiança dos cidadãos, com atitudes éticas, credíveis e transparentes.
António José Seguro dispõe de legitimidade reforçada para colocar em prática este guião. Não só porque foi eleito com uma maioria muito mais expressiva do que inicialmente se supunha, mas porque conseguiu reunir apoios muito transversais, da Esquerda à Direita do nosso espetro político. Naturalmente que as dificuldades vão aparecer mais à frente e, muito provavelmente, já mais para o final do ano com a votação do Orçamento do Estado. Mas, até aí, deixou avisos à navegação, ao assumir que uma eventual rejeição do documento não implica necessariamente uma dissolução do Parlamento.
No curto prazo, o presidente da República tem na reforma laboral uma boa oportunidade para implementar a sua agenda política. É a primeira prova de fogo para António José Seguro, dado que o diálogo social parece estar a falhar por manifesta indisponibilidade da UGT em negociar as propostas que estão em cima da mesa. Começar por exercer a sua magistratura de influência numa matéria que é, por definição, um compromisso político alargado seria um começo ainda melhor para Seguro e a demonstração de que o seu discurso é mesmo para levar a sério.

