O bolo-rei já não é o que eu comia ou então a culpa é do meu paladar envelhecido. Sei que já não me sabe ao mesmo, que já não tenho prazer com as frutas cristalizadas e que a massa fica seca ao fim de duas horas. Há sítios melhores onde me juram que o bolo é o que nunca deixou de ser, mas nem assim me convenço. Pode ser das ausências, dos que nos vão morrendo, das avós e da minha mãe que já não está - embora se estivesse seria sempre a trouxa de ovos a dominar a mesa. Até os brindes e as favas já não existem. Culpa deste nosso anacrónico histerismo regulatório que nos tenta proteger de nós próprios... ou porque os tascos não têm condições de higiene ou porque o açúcar faz mal ou porque podemos partir um dente com um brinde ou engolir uma fava. Somos tão perversos para umas coisas e tão delicodoces para outras, impossível de entender. O que sei é isto, o bolo-rei morreu como nós o conhecíamos. Compramo-lo por ser obrigatório, como a árvore, o presépio e o "Sozinho em casa" nas intermináveis matinés televisivas onde pastamos no sofá e entre embrulhos e crianças, com o estômago mais cheio do que uma marmota antes de hibernar. A crise é tão grande, que o pobre rei perde aos pontos para o menos doce bolo-rainha. Pela minha parte, fica aqui a jura de que, no dia 24, ao fim da manhã, irei à Confeitaria Nacional, na Baixa de Lisboa, onde a tradição nasceu, para pedir um bolo-rei na esperança de que o meu paladar tenha mudado de um ano para o outro.
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