A SIC repetiu neste Mundial a fórmula de “Os Incríveis”, um programa de Daniel Oliveira onde ele entrevista alguns dos jogadores da selecção enquanto lhes visita e mostra a intimidade, as casas, famílias, cães, carros e piscinas. A série de entrevistas passou antes de começar o campeonato e está a agora em repetições nos vários canais da casa.
Tenho ouvido e lido muitas críticas ao programa e ao jornalista Daniel Oliveira. (E chamo-lhe desde já jornalista, o que serve logo para que se perceba de que lado estou nesta história.) As críticas vêm de todos os quadrantes, reúnem os que odeiam futebol e os intelectuais do futebol. Dizem que o programa é voyeurista, que é jornalismo cor-de-rosa no seu pior, que é fútil…
Mas eu, que também tenho pouco interesse no que pensa a mãe do guarda-redes Eduardo, sei bem o que custa a um jornalista chegar ao ponto em que consegue pôr a mãe do guarda-redes Eduardo a dizer com naturalidade o que quer que seja. Sei o trabalho que isso dá.
Por isso digo que Daniel Oliveira é um profissional a sério. Fez o que tinha de ser feito para conseguir pôr a mãe do Eduardo a contar porque não queria que o filho fosse jogador de futebol. Esta parte do jornalismo não chega às câmaras e aos jornais, mas é importante para conseguir tudo o que lá chega. Implica paciência, inteligência e persistência.
Esse trabalho de preparação é o que distingue, na estratégia e no profissionalismo, um trabalho de especialista, como por exemplo o de Robert Fisk, que quando escreve no inglês “The Independent”, dita o standard sobre o que deve ser escrito sobre assuntos do Médio Oriente. É também o que diferencia o jornalista do comum dos cidadãos que manda “bitaites”. E é o que separa Daniel Oliveira do comum jornalista desportivo “pé-de-microfone”, à porta do hotel da selecção. Um tem conteúdo, o outro é o vazio, o “nada”.
Tendo em conta as audiências de “Os Incríveis”, ao contrário de mim, há muita gente interessada em saber o que pensa a mãe de Eduardo ou como é a casa de Cristiano Ronaldo em Madrid. E Daniel Oliveira preenche essa necessidade com um programa bem feito, com imensa qualidade. Há sempre duas maneiras de fazer as coisas. E uma delas é bem.
Uma das grandes vantagens de “Os Incríveis” é que as entrevistas estão cheias de factos. Outra é que não resvalam para o mau gosto, mesmo quando Daniel pergunta ao Ronaldo pelas namoradas e obtém do melhor jogador do Mundo uma resposta que qualquer jornalista se pelava para ter: “Eu respeito as minhas namoradas, eu tenho irmãs e mãe”.
Qualquer jornalista dava muito do que tem para obter de Deco esta resposta quando lhe perguntasse como estava a encarar a “reforma”. “Você vai ser jornalista toda a vida, mesmo que se reforme, eu, daqui a uns dias, vou ser ex-jogador. Isso assusta-me”. Isto é jornalismo. E do bom.
