O bom, o mau e o vilão e os novos impérios
A política mundial vive um tempo em que a forma parece ter derrotado a substância. As ideologias esvaziaram se, mas os líderes continuam a ser tratados como personagens de um grande palco, cada um com o seu papel bem definido. Três figuras dominam hoje o enredo global: Xi Jinping, Vladimir Putin e Donald Trump.
São símbolos de três maneiras distintas de exercer o poder. Xi Jinping aparece como o rosto calmo da ordem. Governa com um poder metódico, discreto, que se apresenta como inevitável e racional. A China que projeta é o contrário do caos: previsível, eficiente, estável. O seu autoritarismo veste a linguagem da gestão e da competência, mais administrativa do que abertamente repressiva. Para democracias cansadas de crises e disputas permanentes, este modelo exerce um fascínio silencioso.
Quando o "bom" passa a ser simplesmente aquilo que funciona, mesmo à custa da liberdade, percebemos como a bússola moral da política se deslocou.
Putin representa um "mal" à moda antiga. Acredita que o poder nasce do medo e que a história se dobra à vontade de líderes fortes. A Rússia que encena vive de nostalgia e ressentimento: tenta transformar memórias imperiais em território real. O cinismo é o seu idioma, a sua assinatura a violência. Há, porém, algo de anacrónico nesta figura: é um mal cru, visível, demasiado literal num tempo em que o controlo tende a ser digital, difuso e aparentemente higiénico. O resultado é um líder que parece preso ao século XX.
Trump é o "vilão" ideal deste enredo. Não quer restaurar o passado nem construir um futuro coerente - quer manter o presente em repetição contínua. Intui que a política se decide sobretudo na batalha das narrativas e da atenção.
Obcecado com a dimensão transacional económica, lê alianças, acordos e até valores como negócios a ganhar ou perder. Tem fascínio por tiques autoritários e admira líderes fortes. É um demagogo em versão influencer, o estadista transformado em marca, sempre à procura do próximo choque que o mantenha no centro do palco.
Neste cenário a Europa esvai-se como protagonista. Já não conta como polo autónomo de poder, surgindo mais como comentador preocupado do que como ator decisivo. Fragmentada, hesitante, presa a debates internos, vai assistindo à disputa entre impérios sem conseguir impor uma posição própria. A geopolítica do século XXI escreve-se cada vez mais em chinês, russo e inglês americano, e cada vez menos em qualquer das línguas da velha casa europeia.

