Como é possível, a tão poucos quilómetros da capital, haver tanta gente desamparada? Sem água, sem luz, sem telhado, há uma semana. Como é possível ter havido um hiato de três dias, entre a tempestade e a consciência da gravidade das suas consequências e mais dois dias a reunir-se o conselho de ministros? Nesse impasse, houve tempo para vídeos promocionais nas redes sociais de Leitão Action Men Amaro, encenação com tropas no terreno para os jornalistas entrevistarem o ministro da Defesa com cenário e figuração, número de enchimento de bagageira com garrafas de água e esgares de esforço de André Ventura, desfile de carros pretos de alta cilindrada pelo aeródromo de Coimbra, evocações de trabalho invisível da ministra da desadministração interna, ao ponto do presidente da câmara de Leiria sucumbir ao desespero de dizer que o seu distrito não é um zoo para ser visitado e que precisa de ajuda real!
As pessoas, órfãs de Estado, juntaram-se às centenas para desobstruir estradas, consertar telhados, amparar os idosos, limpar os bueiros, angariar mantimentos e materiais de construção e órfãs de Estado continuaram até que o resto do país se juntasse, numa onda de solidariedade, com voluntariado, donativos e mobilização. Ora, num país governado pelo diapasão do neoliberalismo e em permanente emagrecimento do Estado, começam a ser demasiado claras as consequências desta linha política.
Ainda não esquecemos o desastre do Elevador da Glória e já temos a total destruição do distrito de Leiria a lamentar, mais os seus mortos e feridos. Sendo que, neste caso, há uma relação causal da tragédia às alterações climáticas e suas violentas manifestações, o que deixa claro, não só que o emagrecimento do Estado mata, como também o total descaso dos nossos governantes para com a necessária adaptação do nosso território aos fenómenos climáticos.
É que, por um lado, é parco o nosso contributo para travar a extinção da espécie, através de políticas reais de descarbonização e, por outro, incêndio após tempestade, lamentamos sempre com custos humanos e económicos, a nossa inação no lado da prevenção. Ao mesmo tempo, a Direita portuguesa que ladeia este (des)governo, é composta por negacionistas das alterações climáticas. Uns por serem obscurantistas e vassalos de Trump, crentes em teorias da conspiração e inimigos da verdade e da ciência. Outros, por servirem os grandes capitalistas e a sua quimera do mercado desregulado e livre de responsabilidades. Ficando clara, no discurso da IL, a imoralidade da sua hierarquia de prioridades, quando na semana da tragédia leva ao Parlamento a proposta de eliminar a expressão "emergência climática" da lei de bases do ambiente e a revogação de dezenas de medidas que visam a sustentabilidade.
Nota de correção: na crónica da passada semana, afirmei equivocadamente que o aumento do quebra-mar de Leixões é para servir os cruzeiros de grande porte, entretanto fui informada que serve para navios de grande porte no geral. Fica esclarecido.

