O discurso de boas-festas
Nos recentes discursos de Natal e de Ano Novo, quer do presidente da República quer do primeiro-ministro, tivemos algumas notas que é agora importante revisitar.
De um lado, a crítica de Marcelo Rebelo de Sousa ao sistema político, apoiando-se em Eça de Queirós e na sua "Ilustre casa de Ramires", e, do outro, o apelo de Luís Montenegro que deveríamos seguir o exemplo resiliente de Cristiano Ronaldo.
Portugal sabe bem a importância e o valor de Cristiano Ronaldo, mas também sabe que, por força das circunstâncias, nem sempre é possível compreender todas as suas mais recentes atitudes.
Elogiar a sua capacidade de resiliência é esquecer que o seu exemplo tem tido, felizmente, ao longo da nossa história, muitos outros casos idênticos. No domínio do futebol, poderíamos lembrar só Eusébio ou Luís Figo.
Quando lembramos a nossa atitude, e o comportamento de esforço e abnegação pelo mundo da nossa diáspora, temos muitos portugueses para valorizar e cujo exemplo até em Portugal é esquecido.
Gostaria de lembrar aqui dois nomes: Pedro Teixeira (1570/1587-1641) e Luís Fróis (1532-1597).
Pedro Teixeira nasceu em Cantanhede, depois de participar no esforço de reconquista aos espanhóis e aos neerlandeses do Brasil, chefiou uma expedição, que partindo de Belém do Pará subiu o rio Amazonas, confirmou a comunicação entre o Atlântico e o Peru, delimitando as fronteiras portuguesas no quadro do Tratado de Tordesilhas. Desconhecido em Portugal, ajudou a forjar o Brasil que conhecemos.
Luís Fróis foi um missionário jesuíta que viveu 34 anos no Japão. Foi considerado o primeiro cronista europeu do Japão, com o seu "Tratado das contradições e diferenças de costumes entre a Europa e o Japão", onde descreveu, com pormenor, as suas impressões sobre as tradições e a cultura daquele país no século XVI. Foi, talvez, o português que mais bem soube explicar a nossa presença no Japão e a análise que fez conjunta das duas civilizações. Os japoneses ergueram-lhe uma estátua na cidade mártir de Nagasaki.
Estes dois exemplos mostram bem a capacidade de resiliência em ambientes adversos e a coragem de muitos dos nossos portugueses na diáspora por outras geografias.
Quando o presidente da República se refugia, através de Eça, para deixar algumas críticas, a nossa classe política está a manifestar, com inteligência, aquilo que o Chega faz de uma forma desastrada. Em final de mandato, sente-se com a liberdade suficiente para deixar este tipo de recados críticos.
Daí que estes discursos tenham passado algo despercebidos na opinião pública porque, sendo parte de um ritual, não deixaram de revelar a contradição que estamos a viver neste momento.
Neste tempo de eleições presidenciais, exigimos ou devemos exigir aos candidatos algo mais do que só comentar a espuma do dia a dia. Temos de saber quais são as suas ideias, de que forma entendem o papel do presidente no sistema político e qual a sua preocupação perante o atual xadrez geopolítico e geoestratégico.
Precisamos, pois, de ter atores, que na ação política sejam mais do que meros agentes ou facilitadores.

