O sebastianismo não acabou com D. Sebastião. Sobreviveu e ressurge quando o sistema político entra em colapso de sentido. Os portugueses tendem a projetar num rosto ausente do palco político e mediático a solução que o presente não consegue produzir. Hoje, esse rosto tem nome: Coelho, Passos Coelho, "agente encoberto" do reformismo de Direita.Quebrou o silêncio mediático em abril de 2024, ao fazer declarações ultraconservadoras em termos sociais e a admitir que o PSD poderia estender o braço mais para a sua direita. Durante a apresentação do livro "Identidade e família", notou-se, entre a assistência, a presença entusiástica de um dos seus grandes fãs, André Ventura, líder do Chega, atualmente o segundo maior partido. Desde então, foi falando por aí, sempre com algum estrondo.
Agora, deu uma entrevista alargada ao jornal online "Eco". Aquele que foi o primeiro-ministro durante a troika e que, ainda assim, ganhou as eleições em 2015 - sendo inesperadamente ultrapassado por António Costa e a sua geringonça -, tenta desfazer um aparente equívoco: "Quando eu quiser candidatar-me, candidato-me, e anuncio que me vou candidatar". Não há nevoeiro, insiste.Defende ainda que o Governo de Montenegro deveria ter tentado um acordo de legislatura com o Chega e a IL - "só quando tentamos é que sabemos" - para garantir estabilidade e capacidade reformista. Critica a ambiguidade na privatização da TAP, a timidez das reformas ao fim de quase um ano de segundo mandato e a negociação casuística que torna difuso quem governa e quem bloqueia. O método que propõe é simples e pouco épico: confrontar o Parlamento com propostas claras, responsabilizar cada partido pelo seu voto. O "encoberto" (pelo nevoeiro) não morreu, tal como D. Sebastião. Anda e andará por aí.

