Há décadas que vemos juristas a gerir a saúde ou economistas a tutelar transportes sem contestação. Mas bastou alguém com formação de base em Enfermagem assumir funções numa área de decisão estratégica para surgir o escândalo. Continuamos a confundir licenciatura com destino definitivo.
Licenciado em Enfermagem pela ESEP em 2018, Fábio Teixeira nunca exerceu. Investiu numa pós-graduação em Gestão de Projetos na PBS, obteve certificações internacionais e construiu currículo no setor privado como gestor de projetos e business developer em consultoria tecnológica. Isto não é um caso de "reconversão tardia" nem de alguém a tentar ser o que não é. É, simplesmente, o retrato de um mercado onde as competências se constroem por camadas e onde as funções exigem mais do que um rótulo académico.
O modelo de ensino superior pós-Bolonha foi desenhado para reforçar a flexibilidade, a mobilidade e a progressão por ciclos, para permitir percursos complementares e especializações sucessivas. O mundo do trabalho mudou: hoje há carreiras que se fazem por combinação de competências e não por decisão única e imutável feita aos 18 anos.
Importa clarificar que Fábio não foi escolhido para fazer engenharia, mas para funções de gestão interna como a organização de processos, planeamento e acompanhamento de licenciamentos. Em projetos complexos, estes papéis são essenciais, pois são eles que evitam atrasos, reduzem fricções, tornam decisões auditáveis e permitem que especialistas façam o que têm de fazer com mais foco.
No futebol, ninguém joga com 11 Ronaldos: é preciso equilíbrio, funções distintas e estratégia comum. O mesmo se aplica às organizações.
Rigor é exigir competência adequada à função, experiência e responsabilidade pelos resultados, não apenas reduzir alguém ao "canudo" inicial. Julgar alguém desta forma é perpetuar preconceitos e desperdiçar talento.

