O futebol profissional entre 2030 e 2040
Durante mais de um século, o futebol afirmou-se como um bem cultural coletivo, sustentado por um modelo económico simples, baseado na bilheteira, direitos de transmissão, patrocínios e numa base social estável. Esse modelo aproxima-se de um ponto de inflexão. Entre 2030 e 2040, é plausível que o futebol entre plenamente na economia da atenção, onde o valor deixa de resultar apenas do jogo e passa a depender da capacidade de captar, reter e monetizar tempo, dados e envolvimento emocional.
Entre 2030 e 2035, poderá emergir um futebol híbrido. O jogo manter-se-á, mas será consumido em múltiplas camadas, do estádio ao streaming, dos clipes instantâneos aos comentários alternativos e aos dados em tempo real. A figura do adepto médio tende a diluir-se, dando lugar a segmentos com valores distintos. O desafio económico passará de maximizar audiências para otimizar o valor por minuto de atenção, abrindo espaço a subscrições modulares, publicidade hipersegmentada e monetização de dados.
A partir de 2040, o público poderá ser maioritariamente digital-first, acompanhando o futebol através de narrativas personalizadas e experiências apoiadas por IA. Cada adepto verá o seu jogo. O estádio físico continuará relevante, mas como produto premium, com experiências diferenciadas e maior rendimento médio por espectador. Também a noção de assistência evoluirá, integrando presença física, comunidades digitais e ambientes virtuais, permitindo que um jogo seja economicamente bem-sucedido mesmo com menor ocupação no estádio.
Alguns sinais destas mudanças já são visíveis. A Allianz Cup, que termina hoje em Leiria, tem funcionado como laboratório de inovação organizativa, experiência de estádio e novos formatos de difusão.
Neste contexto, o papel das Ligas tornar-se-á central. Mais do que organizadoras de competições, terão de assumir responsabilidades na regulação económica, proteção da integridade digital, soberania dos dados e preservação da coesão social. O futebol será mais tecnológico e imersivo. A questão será quem define os limites e quando.

