Durante um almoço-debate, esta semana, André Ventura afirmou querer ser o "... herdeiro de Sá Carneiro...". Se esse é o seu desígnio, o seu projecto político de vida, então terá de rever o seu comportamento e a prática do seu partido, no que se refere à verdade, à honestidade e ao rigor com que interagem com os cidadãos, residentes, estrangeiros e apátridas que vivem em Portugal. Sá Carneiro era um democrata. Não era racista, nem xenófobo. É recordado pela sua frontalidade e verdade com que abordava e discutia os principais problemas do país. Era um Senhor. Não é o procedimento a que nos vem habituando André Ventura. Tomou para tema prioritário da sua intervenção política e do seu partido a luta contra a imigração, o mal de todos os males, o apocalipse da Lusitânia. Fá-lo faltando à verdade, confundindo a opinião pública com um discurso sibilino que brota discriminação e incitamento ao ódio e à raiva contra os imigrantes. Usa mitos para convencer a opinião pública que os imigrantes são os causadores das suas desventuras profissionais e sociais. Apregoa, nomeadamente, que estes recebem subsídios estatais logo à sua chegada a Portugal. Falso. Não existem tais apoios, só para os imigrantes em situação legal. Pagam impostos, descontam para a Segurança Social e, por isso, beneficiam de apoios sociais nas mesmas condições e requisitos exigidos aos portugueses. Aqueles contribuem para a Segurança Social, de forma muito significativa, garantindo a sustentabilidade do sistema, incluindo o pagamento das pensões e aposentações dos portugueses. Segundo informações públicas, cerca de um milhão de imigrantes terão descontado, em 2025, montante equivalente a cerca de 17% do valor total, perto dos 3,6 mil milhões de euros. Em 2024, estudos apontam para que os imigrantes tenham contribuído com o quíntuplo do que receberam em apoios sociais. Afirma, ainda, que os imigrantes vêm "roubar o trabalho aos portugueses". Falso. O desemprego em Portugal atinge mínimos históricos. Há oferta de emprego e os imigrantes trabalham nos sectores mais afectados pela escassez de mão de obra, em serviços menos qualificados, mais pesados e indiferenciados, como a hotelaria, a agricultura, a construção e a restauração. Reivindica, também, um aumento da insegurança e da criminalidade devido à imigração. Repetidamente têm sido desmentidos tais boatos e aleivosias. Não há qualquer ligação entre as duas premissas apresentadas. Estas são apenas algumas das deturpações da verdade insistentes nos discursos de André Ventura, que o afastam e opõem à figura política incontornável que foi Sá Carneiro.
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