Dez anos se passaram desde que saiu, no primeiro álbum de Gisela João, a minha primeira letra de fado e, mais concretamente, a minha primeira versão da "Casa da Mariquinhas".
O desafio que me foi dado pela Gisela era reescrever a letra de "Vou dar de beber à dor" (o clássico de Amália Rodrigues), imaginando como estaria então a lendária casa. Aceitei prontamente e, como a Casa da Mariquinhas tinha uma longa história, com pelo menos duas versões anteriores à de Alberto Janes para Amália, decidi contar a genealogia do tema desde que Alfredo Marceneiro trouxe a casa ao nosso cancioneiro até aos anos da troika, em que nos encontrávamos, descrevendo-a como estando emparedada, devoluta e em ruínas. Foi um pretexto para falar do estado decadente dos bairros históricos, da pobreza dos seus habitantes, da tristeza que se abatia sobre o país, num registo irónico e divertido, honrando o legado do fado de contar histórias e contribuir para documentar a História do país.
Entretanto muita coisa mudou. Por isso mesmo, a Casa da Mariquinhas não podia continuar emparedada e cristalizada nos anos da austeridade. Tinha de atualizá-la, nem que fosse para honrar a canção enquanto organismo vivo, como as cidades, as artes e a língua. Portanto, em 2016 comecei uma nova versão, numa crónica, descrevendo a casa como estando recuperada e transformada em equipamento hoteleiro, numa Lisboa para fruição turística, em que o português não tem possibilidades de habitar. A casa tinha mudado, a cidade também, só a pobreza do nosso povo se mantinha intacta, mesmo com mais emprego e mais prosperidade económica. Entusiasmada, Gisela João pediu-me que terminasse a letra para a incluir no seu próximo disco, mas o tempo foi passando, chegou a pandemia e o disco (que saiu entre confinamentos) não incluiu a canção, precisamente porque, na altura, o turismo estava suspenso. O "Hostel da Mariquinhas" ficou no limbo.
Ora, se as canções são organismos vivos (e esta, por acompanhar a nossa história há muitas décadas, renovando-se sempre, mais ainda), acabam sempre por impor-se. Foi esse o caso. A Gisela João decidiu lançar o tema nas plataformas digitais há poucos dias e não paro, desde então, de receber mensagens de entusiasmo pela letra. Tenho sentido, como poucas vezes, uma grande identificação por parte do público. Pois perante toda a crise da habitação, que se acentuou com o intensificar do turismo, sobretudo nos bairros históricos, onde grande parte das casas são para alojamento local e as lojas se enchem de souvenirs e comida gourmet, o descontentamento cresce. O "Hostel da Mariquinhas" foi a minha forma de canalizar essa angústia, de forma sarcástica e castiça, e é dedicada a todas as pessoas que não encontram lugar nesta cidade-cenário para inglês ver.
*Música

