1. O presidente dos EUA é um homem perigoso. E lidera uma democracia mais frágil do que parecia. Uma democracia sob controlo de um líder autoritário, narcisista e corrupto. O ataque à Venezuela e o rapto do seu presidente, Nicolás Maduro, constituem uma grosseira violação das leis internacionais, mas também das leis americanas, uma vez que nem sequer se deu ao trabalho de pedir autorização ao Congresso. A justificação para o ataque e detenção de Maduro, ou seja, a acusação de narcoterrorismo, é, para citar o editorial do jornal "The New York Times", simplesmente "ridícula". A verdadeira razão é outra. Donald Trump e a extrema-direita que o suporta decidiram que é tempo de voltar a tratar a América Latina como o seu "quintal". E explorar o seu petróleo. É o imperialismo que regressa, mas desta vez com um líder autocrático e sem controlo na Casa Branca, à frente de um poder militar sem paralelo no resto do Mundo.
2. O ex-presidente da Venezuela era um homem perigoso. Poucos derramarão uma lágrima pela sua saída do poder. Nos últimos anos, Maduro e os que o rodeiam destruíram a Venezuela. Ainda no passado mês de dezembro, a ONU divulgou um relatório sobre a situação no país em que se expunham a repressão e o assassínio de quem ousava protestar nas ruas contra o regime, a prática reiterada de detenções arbitrárias de líderes da Oposição e até relatos de tortura. Um regime que encenava eleições, mas que já não era capaz de as vencer, dando origem ao que por cá se costuma denominar de "chapelada". Na frente económica e social, deixa um país em derrocada, com o êxodo de cerca de oito milhões de pessoas. Resumindo, uma oligarquia ditatorial, que, para além do cabecilha, integrava uma série de elementos corruptos que beneficiavam das prebendas do poder.
3. Na Venezuela vive uma enorme comunidade de emigrantes portugueses e seus descendentes. Os números variam entre os 600 mil e os 1,2 milhões, sendo que várias centenas de milhares abandonaram o que já era o seu país nos últimos anos, fugindo à pobreza e à distopia política. Compreende-se que o Estado português atue com cautela diplomática. Mas é preciso cumprir os mínimos e dizer o óbvio: que o regime venezuelano é corrupto e ilegal; e que a intervenção americana é ilegal e inaceitável. Até porque, para citar Lluis Bassets, no jornal "El País", nunca haverá paz e democracia com o dedo no gatilho.

