A visita do presidente Xi Jinping a Portugal provocou ondas de entusiasmo e crítica num debate que se saldou pela conclusão de que a China é um parceiro que não podemos dispensar.
Muitas razões nos aproximam ainda que tenham sido diplomaticamente deixadas nos subentendidos que tanto agradam à cultura chinesa e não desagradam ao modo de ser português. Este encontro antecipa as comemorações dos 40 anos de relações diplomáticas e os 20 anos da retrocessão de Macau para a China, termos cuidadosos para evitar abrir as velhas feridas dos tratados desiguais. A China não esquece esse século de humilhação em que as potências ocidentais impuseram a abertura dos seus portos para retirar o que lhes interessava e impor a venda de ópio, que enfraqueceu a nação e fez alastrar a corrupção. A China não esquece que a pujança de Hong Kong se construiu nas ruínas de um tempo em que estava exangue, seguido de guerras internas e invasões externas que quase extinguiram a sua aura ancestral de potência regional. Também nós não devemos esquecer que as relações terão de ser estabelecidas numa base de respeito mútuo e vantagem para os dois lados.
Quando nos anos 90 a China começou a atrair o interesse dos mercados, a economista Virgínia Trigo, que vivia em Macau, publicou um pequeno livro, "Negócios da China", que em vez de indicadores ou informações sobre a economia se centrava na cultura chinesa como condição essencial para alcançar bons resultados. Principal traço é o culto da face, sendo para nós tarefa árdua evitar os caminhos de palavras e gestos que possam contribuir para a humilhação extrema de perder a face.
Em 1998, completavam-se 100 anos de cedência dos Novos Territórios a Inglaterra e, de forma simbólica, esse foi o ano para o regresso de Hong Kong à mãe China, numa complexa negociação que não permitiu cerimónias conjuntas. No caso de Macau, a data foi decidida para que a China entrasse no ano 2000 sem esses dois espinhos estrangeiros, ainda que lhe tenha ficado um outro, ainda maior, que vai paulatinamente desencravando.
A China já é grande, mas será maior e tem ocupado o espaço que outras potências abandonaram fechando-se nas suas fronteiras. Ao contrário, o presidente Xi insiste no multilateralismo e reconhece as alterações climáticas. Longe de ser um mundo perfeito, mas um mundo com o qual podemos e sabemos dialogar, nunca deixando de nos colocar como iguais e orgulhosos de nós.
*Professora universitária
