O jornalismo que (não) se aprende nas escolas
É consensual a ideia de que os mais novos não consomem informação jornalística, embora dediquem muitas horas às redes sociais por onde circula abundante informação, muitas vezes de origem duvidosa. Há um ano, o Governo criou um Plano de Ação para a Comunicação Social que prevê a oferta de assinaturas digitais de jornais a estudantes do Ensino Secundário. Sabe-se agora que poucos aderiram. Mas o problema é mais fundo: o que aprenderão os alunos na escola sobre jornalismo?
Quando a 8 de outubro de 2024 o então ministro dos Assuntos Parlamentares, Pedro Duarte, apresentou o Plano de Ação para a Comunicação Social, pretendia revitalizar o setor, promover a literacia e combater a desinformação. Uma das medidas em curso é a oferta de assinaturas digitais a alunos do Ensino Secundário. Passado um ano, do universo de 400 mil jovens, sabe-se agora que apenas quatro mil aderiram, ou seja, um por cento. Será por desinteresse ou por falta de informação? Segundo noticiava este jornal no passado sábado, "as escolas pouco sabem sobre esta gratuitidade de jornais". Porque não houve divulgação. E isso não se percebe. É precisamente na escola que estes apoios devem ter divulgação máxima. No entanto, o problema é mais fundo. Se revisitarmos os programas escolares, percebemos que os estudantes passam muitas vezes aquém da essência do jornalismo.
Por exemplo, na disciplina de Português do 8.º ano, uma das matérias centrais no primeiro trimestre são os géneros jornalísticos. Percorramos o que os alunos aprendem sobre a reportagem: é um texto "do tipo jornalístico" com a seguinte estrutura: título, introdução, desenvolvimento ou corpo e conclusão. Ensina-se também que "pode evidenciar subtilmente a opinião do jornalista". A reportagem não é nada disto. Não tem essa lógica estrutural e ao jornalista, até pelo estatuto que rege a profissão, está vedada a possibilidade de emitir opiniões sobre os factos que reporta. Também se dizem outros disparates sobre os demais géneros: uma notícia é um texto curto, uma entrevista deve terminar com um agradecimento do entrevistado... A isto acresce o facto de os professores de Português não terem tido formação académica neste campo, o que não lhes permite reajustamentos de fundo. Percorrendo vários manuais, estou certa de que fugiria a sete pés destes conteúdos...
Como é possível os estudantes desenvolveram aprendizagens erráticas num tema tão sensível como o da informação jornalística, central para a formação de cidadãos críticos e para o desenvolvimento de democracias sustentáveis? Como pode uma medida de assinaturas de jornais grátis não ter interessados? Uma coisa é certa: oferecer jornais de nada vale, se ninguém souber distinguir factos de opiniões.

