Em março de 1945, o Departamento de Guerra dos EUA publicou uma brochura sobre o fascismo: o que era, como se manifestava, onde levava, o modo como nenhum país estava a salvo. Em muitos aspetos, parece o guião de Donald Trump, mas é de aplicação universal. Uma das coisas que os fascistas fazem é prometer tudo e o seu contrário, mas também gostam de descredibilizar o que já existe - "o sistema" -, fascinando os descontentes. E estes, na insanidade das redes sociais, são amplificadores de aldrabices a um nível que Hitler e Mussolini jamais ousaram sonhar.
Vejamos, pelo texto de 1945, o que acontece às promessas: "Era bastante fácil, para os fascistas, prometer tudo a toda a gente antes de estarem no poder. Mas, quando chegaram ao poder, obviamente que não puderam cumprir todas as promessas contraditórias. Já tencionavam, antecipadamente, quebrar algumas: quebraram aquelas que tinham sido feitas às classes médias, aos trabalhadores e aos camponeses".
Passemos à descredibilização do que existe, usando um caso recente. Uma política/influencer portuguesa, que, como Mussolini, deslizou da esquerda para a direita extrema, fez um vídeo (parei a vê-lo por partir de uma notícia do JN) sobre os dinheiros da Presidência da República. Desde logo, a senhora mentiu ao dizer que o orçamento de Belém é 13 vezes superior ao da Casa Real espanhola (nem soube manipular a informação como fez há anos, dizendo estar em causa o que cada contribuinte paga: através desse cálculo demagógico, sendo os espanhóis quase cinco vezes mais, claro que dá menos a cada um). Ora, o orçamento da Presidência da República é de 25 milhões de euros anuais, enquanto o da "Casa de Su Majestad El Rey" é de 8,43 milhões, apenas porque, no caso espanhol, a fatia de leão das despesas (viagens oficiais, salários do pessoal, manutenção de património...) não está ali, mas nos orçamentos de vários ministérios. Já em matéria de salário, o PR aufere, ilíquidos, 168 mil euros anuais.Vejamos a realeza espanhola: rei Filipe VI, 270 mil; rainha Letizia, 140 mil; rainha Sofia, 120 mil.
Ruge a política/influencer: "É isto que António José Seguro leva para casa: um orçamento de 25 milhões e um salário de mais do que 12 mil euros". Parece pensar, como os seus seguidores, que devemos pagar o salário mínimo ao chefe de Estado. Eu afirmo que não, mas, atentando no que ela diz, faço pausa na alegria que me deu a eleição de Seguro e fico roído de inveja: dava-me um jeitaço levar 25 milhões para casa.

