"P****, saiam das vossas tocas como coelhas! São umas p**** ninfomaníacas!" As palavras foram gritadas no silêncio da noite por um estudante do Colégio Maior de Elías Ahuja, da janela de uma residência universitária em Madrid. De imediato, numa resposta articulada e premeditada, dezenas de alunos levantaram as persianas do edifício de sete andares e entoaram cânticos machistas dirigidos às colegas da residência feminina de Santa Mónica, do outro lado da rua. "La Granja", assim se denomina a prática habitual entre os estudantes, que urram como animais das janelas, já era esperada pelas alunas.
Em poucas horas, o vídeo de um minuto viralizou nas redes e gerou na semana passada uma onda de choque de proporção nacional. Dos responsáveis da ordem religiosa de São Agostinho, que gerem a residência universitária e anunciaram a expulsão do aluno, ao primeiro-ministro Pedro Sánchez, que considerou os atos "inexplicáveis, injustificados e absolutamente repugnantes" e apelou a todos para travar o machismo, passando pelo Ministério Público, que abriu um inquérito para averiguar um eventual crime de ódio - todos expressaram, sem surpresa, repúdio. E os visados fizeram também o expectável: emitiram um comunicado a pedir desculpa.
O que surpreende é a reação das alunas alvo dos insultos. Consideram que não se trata de machismo, mas de tradição, um rito normal entre os estudantes da Universidade Complutense de Madrid, uma brincadeira de mau gosto tirada do contexto. É a normalização do insulto, a aceitação do abuso, a perpetuação da violência do género que, em Espanha tal como cá, assume dimensão endémica. Porque quem admite como normais as injúrias públicas de colegas, provavelmente, também vai aceitar que, na intimidade, um namorado ou marido lhe controle o telemóvel, dite a indumentária, humilhe ou agrida emocional, sexual ou fisicamente. E, enquanto sociedade, é a confirmação de que a misoginia é uma patologia de origem cultural que não é exclusiva dos homens. O machismo também é delas.
*Editora-executiva-adjunta

