Na noite de 20 de janeiro, liguei para lhe sentir a alegria pela vitória, arrancada ao minuto 90, do seu Sporting sobre o detentor do título europeu, o Paris Saint-Germain, na Liga dos Campeões. "Correu bem", comentou, assinalando que o seu clube, tendo sido competente, "teve sorte". Era sempre assim. Tivesse o Sporting jogado e vencido o F. C. Porto ou o Benfica, um clube do meio ou do fundo da tabela, era dele a iniciativa de reconhecer, se era caso disso, os méritos dos adversários. "Também tiveram oportunidades", era uma frase recorrente. De resto, nunca o vi chatear-se com ninguém por causa do futebol; e as polémicas das arbitragens, para ele, não eram assunto.
Este era o meu pai, falecido, súbita e precocemente, aos 94 anos, numa altura em que, além da desordem climática, assistíamos a novos episódios da crónica desordem do pequeno-grande mundo do futebol, com violência entre adeptos, mais de uma centena de detenções à margem de um jogo de futsal, insultos racistas. O meu pai foi o meu maior exemplo de moderação e bom senso, mas estou longe de cumprir o legado. Prova disso, na parte do bom senso, se visto como capacidade de ajuizar o que está à frente do meu nariz, foi ter julgado que o triunvirato Frederico Varandas - Rui Costa - André Villas-Boas, a dirigir os "três grandes", trariam sanidade ao futebol português, com natural contágio a outras modalidades.
Passou já tempo suficiente para constatar que, nas relações entre clubes e adeptos, nada de essencial mudou desde Bruno de Carvalho, Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa. Villas-Boas e Varandas ainda deram sinais concretos no bom sentido quando, na corrida ao poder e em início de mandato, afrontaram as respetivas claques, mas hoje é claro que se tratou de tática interna, de uma coragem de conveniência que rapidamente se finou.
Varandas, Rui Costa e Villas-Boas, os líderes do Braga, do Vitória e outros não são, acredito, apologistas da violência ou do racismo, mas, objetivamente, não têm mostrado a coragem de condenar, de forma clara e consequente, os arruaceiros e extremistas dos seus clubes quando praticam essas misérias sobre os adversários. Absortos na rivalidade clubística, amesquinham-se e acobardam-se perante as franjas radicais, se é que não se servem delas, ainda, como guardas pretorianas.
É uma má opção. Pelo que vejo à minha volta, a maioria dos adeptos dos clubes são gente mais ou menos como o meu pai, não de andar à pancada dentro ou à porta de recintos desportivos, ou de insultar adversários pela cor da sua pele. Que os dirigentes dos clubes não percebam as vantagens de atrair esta gente e afastar ou pôr na linha os arruaceiros é um erro de cálculo que os põe do lado errado da história e que, inevitavelmente, desvalorizará o futebol português.

