O mito da estagnação, a lição norueguesa e a realidade ibérica
Há uma "fake news" a circular nos corredores da opinião pública: a de que a mobilidade elétrica na Europa estagnou. Repete-se até à exaustão que os consumidores rejeitaram a transição e que o mercado chegou ao limite. Mas os números de 2025 não são apenas teimosos; são demolidores para esta narrativa.
Comecemos pelo "limite". Os céticos adoram dizer que o mercado está saturado. Se fosse verdade, a Noruega, onde os elétricos já representam uns estonteantes 95% de quota de mercado, estaria parada. A realidade? Mesmo nesse nível de saturação quase total, os elétricos cresceram 33% naquele país em 2025. Se o país mais eletrificado do mundo continua a acelerar, o argumento da "rejeição do consumidor" cai por terra.
E o resto da Europa? Longe de estar parada, a região viu as vendas de elétricos crescerem 25,4% nos primeiros nove meses de 2025. A própria Alemanha, muitas vezes pintada como o "doente" do setor após o corte dos incentivos, surpreendeu tudo e todos com um crescimento acumulado de 38,3%. A Europa não travou; mudou foi de velocidade: de cruzeiro para rápida.
É neste cenário vibrante que encontramos a Península Ibérica, não a recuperar, mas a liderar. Espanha viu as vendas disparar quase 90% este ano, e Portugal mantém uma trajetória sólida de crescimento. Não somos uma ilha de otimismo num continente deprimido; somos o ponta de lança de uma tendência inevitável. Curiosamente, este crescimento é ainda mais expressivo quando a marca que todos veem como a impulsionadora da eletrificação cresceu "apenas" 5,6%, provando que o mercado já não depende de um só protagonista.
O que esperar de 2026? Não será o ano da "retoma", mas o ano da democratização. Com a oferta a chegar aos segmentos utilitários, o elétrico deixará de ser uma escolha de elite para ser a escolha lógica das famílias.
O único verdadeiro travão no horizonte não é a falta de procura, mas a nossa infraestrutura. O ritmo alucinante de vendas em Portugal e Espanha está a expor a lentidão da rede de carregamento. Ver o parque automóvel crescer a dois dígitos enquanto os postos ultrarrápidos crescem a conta-gotas é o verdadeiro risco para 2026. O consumidor já fez a sua parte; resta saber se o país terá "corrente" para acompanhar tamanha ambição.
O alargamento da infraestrutura deve ser feito a dois níveis: postos ultrarrápidos nas vias de comunicação, sem descurar o interior, e soluções privadas em empresas e condomínios que aliviem a rede pública. Neste sentido, o Orçamento do Estado, através do Fundo Ambiental, poderá dar um contributo decisivo, apoiando uma capilaridade que minimize a ansiedade dos portugueses, tanto através da rede pública como da privada.

