Olhamos para a cena internacional e não podemos deixar de nos sentir num Mundo invertido, em que os desejos secretos de autocratas e democratas libertários ganham fama e forma. Trump tanto fez birra que conseguiu que Corina Machado, a líder da Oposição venezuelana que os Estados Unidos ignoraram olimpicamente aquando do resgate de Nicolás Maduro, lhe desse a medalha do Nobel da Paz, mesmo que o ato simbólico esteja carregado de imoralidade e seja, como reconheceu o Centro Nobel da Paz, "um absurdo". A facilidade com que a Administração norte-americana dinamita as convenções políticas e diplomáticas é demonstrativa de como a famosa agenda reformista do movimento Maga é mesmo para cumprir. Ainda que, no final de tudo, nos espere uma passadeira vermelha de despojos que não vai dar a lado nenhum.
A bússola moral está avariada também em Davos onde, mais uma vez, se cumpre esse exercício esdrúxulo de hipocrisia global. O mantra deste ano é particularmente inventivo: é imbuído do "espírito do diálogo" que o Fórum Económico Mundial, uma espécie de Oscars para políticos influentes, lobistas e magnatas, se debruça sobre o futuro do planeta, menos preocupado com a saúde do globo e quase exclusivamente centrado nas guerras que nascem como cogumelos venenosos. É curioso como o foco ambiental foi esmagado pelas armas. Basta ver que os norte-americanos vão mandar a maior delegação de sempre à estância suíça. E que a China não lhes ficará atrás. Neste Mundo invertido a dividir por dois não há monstros gelatinosos nem adolescentes com poderes especiais, como em "Stranger things". Mas o que nos espera não é menos assustador.

