Começou por dizer que merecia ser ele a ganhar o Prémio Nobel da Paz e está a terminar com a certeza de que vai vencer o Prémio Nobel da Guerra. Falamos do atual presidente dos Estados Unidos, que iniciou uma narrativa que coloca em crise a atual ordem internacional liberal, criada na consequência e nos escombros da Segunda Guerra Mundial e que, mal ou bem, se tem aguentado. Passou por várias transformações, mas tinha, até à invasão russa da Ucrânia, proporcionado longos períodos de paz, intervalados com guerras sempre feitas em regime de procuração.
Falamos de Donald Trump, essa figura que transformou o Departamento da Defesa em Departamento da Guerra. Alguém cujo ego tem demonstrado que o Mundo vai viver um ciclo de transformação, onde a balança do Poder vai ser afetada pela transformação do eixo do mal, como Bush filho chamou ao Irão e à Coreia do Norte, aliados da China e da Rússia.
Independentemente das guerras económicas com a respetiva imposição de tarifas, Trump procurou criar uma narrativa de defesa e de consequente criação mesmo de um Conselho Mundial para a Paz onde é o seu presidente vitalício.
Entretanto, acabou por colocar em crise não só a ideia de direito internacional como também o próprio direito constitucional norte-americano ao não ouvir o Congresso para poder declarar guerra.
Depois de ter raptado um chefe de Estado na Venezuela, decidiu atacar o Irão. Este, por seu turno, decidiu atacar alguns dos aliados americanos na região e as suas respetivas bases militares.
Ficou, assim, aberta uma guerra no Médio Oriente, com a ajuda do aliado Israel, cujos contornos e o tempo da sua conclusão ainda estão difíceis de definir.
Neste constante equilíbrio da balança do Poder, ousamos agora pensar como irá evoluir o conflito ucraniano ou como a China poderá ouvir os reflexos de uma eventual intervenção em Taiwan.
Desaparecem de cena Nicolas Maduro ou Ali Khamenei, como já o fizeram no passado Sadam Hussein ou Muammar Kadafi, mas o problema que esteve na sua origem continua vivo.
Um traço comum implica e atrai Portugal. Tal como na II Guerra do Golfo com a cimeira que envolveu Aznar, Barroso, Blair e Bush filho, também agora os Açores continuam presentes com a sua Base das Lajes cuja utilização o atual MNE considera que os EUA podem fazer como muito bem desejarem. Enfim, noutros tempos e noutras circunstâncias, até Marcello Caetano foi mais exigente com Washington na defesa de uma ideia de soberania e de Estado.
Estamos, pois, a viver um tempo onde vamos poder compreender o papel dos estadistas e até lá vamos ver o que farão os líderes europeus.

