Até ao final da próxima semana, todos, ou quase todos, os autarcas terão já tomado posse, marcando o arranque de um novo ciclo autárquico que será pautado por enorme incerteza. O crescimento da economia, mesmo que ténue, é uma almofada que traz um relativo conforto, mas os municípios aprenderam da pior forma possível que, se não for por eles, as regiões não avançam. As câmaras municipais vivem hoje num conflituoso equilibrismo entre a necessidade de continuarem a beber das receitas fiscais, esmagadoramente provenientes da venda de casas, e a urgência de disponibilizarem habitação a preços decentes, retendo, com isso, população e fervor económico. Na primeira metade do ano, as autarquias encaixaram 11 milhões de euros por dia em impostos. Só o ganho com o IMT representa mais de metade dessa generosa receita.
Nenhum autarca o dirá em público, mas a especulação imobiliária foi das melhores coisas que aconteceram às contas municipais. Estão a bater-se recordes da década. Ora, perante este cenário, é apenas natural e exigível que, no novo ciclo autárquico, as energias dos presidentes se concentrem quase todas na busca de soluções que, ao nível local, possam ajudar a mitigar um problema nacional. O Estado central é demasiado lento a fazer subir paredes. Terão de ser os municípios, em colaboração com os privados, a tentar esvaziar a bolha.
Não há varinhas de condão nem soluções miríficas, mas há cofres municipais recheados que devem ser usados em benefício das populações e não dos investidores. O novo ciclo autárquico não pode ser de continuação da engorda fiscal. É na força dos autarcas que reside o poder da mudança.

