António José Seguro foi eleito, sem surpresa, presidente da República e dá início a um novo ciclo político. Um ciclo que vai olhar para o papel do presidente de uma forma muito diferente do que foi o comportamento político dos últimos titulares do cargo. Ramalho Eanes teve de criar a função. Mário Soares ajudou a consolidar e deu-lhe o estatuto necessário. Jorge Sampaio deixou evidentes algumas das contradições do cargo. Cavaco Silva tornou a função distante e mais institucional. Marcelo Rebelo de Sousa trouxe a proximidade e a facilidade do acesso ao titular do cargo.
Todos acabaram sempre por dissolver, mais do que uma vez, a Assembleia da República. Todos tiveram o reconhecimento dos seus adversários concorrentes conjunturais ao cargo que recolheram, depois, ao anonimato, deixando o eleito ser o presidente de todos os portugueses.
Agora vai ser muito diferente. António José Seguro, um homem originário de um partido, como foram, aliás, muitos dos seus antecessores, vai ter de dar à função presidencial um novo reconhecimento e enquadramento institucional. Desde logo, porque o seu adversário, nesta segunda volta, vai continuar a ir a Belém porque, além de ser um chefe partidário, vai querer ser o proprietário de todos os votos dos portugueses que entenderam votar nele. Circunstancialmente situados à direita do espectro político. Não será líquido ainda que o anterior presidente consiga resistir à tentação de politicamente intervir.
Terminado este ciclo eleitoral, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, vai sentir a pressão de André Ventura que vai querer assumir-se como o chefe da Direita. Pese embora ser uma ficção, vai obrigar o Partido Socialista a, muitas vezes, ter de ser o suporte do Governo da AD para permitir evitar eleições antecipadas.
O novo presidente terá de ter a coragem de evitar dissolver o Parlamento logo na primeira atitude de crise política do Chega.
Entramos assim neste novo ciclo que obriga o presidente Seguro a perceber que não podemos continuar a fazer política no escuro.
Os portugueses esperam do novo presidente alguém que saiba ter sempre o interesse nacional acima de qualquer interesse conjuntural. Acima de tudo se assuma como um homem preparado para ser o porta-voz dos portugueses junto do Governo e da Assembleia da República.
O sistema político previsto na Constituição de 1976, agora a celebrar 50 anos, foi previsto, pelos pais fundadores, como um sistema equilibrado e com a possibilidade de ter uma válvula de segurança. Será esse equilíbrio que se espera neste novo ciclo onde as decisões presidenciais devem ser sempre refletidas antes de serem anunciadas.

