O surto de nacionalismo, exemplificado na revisão da lei da nacionalidade, a pobreza do debate público, evidente na campanha para as presidenciais, mas também nos debates parlamentares, fizeram-me voltar ao ensaio de Antero de Quental "Causas da decadência dos povos peninsulares". Escrito em 1871, é impressionante como continua a dar pistas para compreendermos alguns dos atavismos que nos impedem de ser mais consequentes, mais efetivos, desde logo a incapacidade para abandonar olhares nostálgicos sobre um passado mitificado.
Dizia Antero: "As raízes do passado rebentam por todos os lados no nosso solo: rebentam sob forma de sentimentos, de hábitos, de preconceitos. Gememos sob o peso dos erros históricos. A nossa fatalidade é a nossa história. / Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? Para entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós: mas não os imitemos".
Antero identificou, na história do país, várias causas do seu atraso. Desde logo, a exploração colonial, que gerou luxo e ostentação, uma riqueza concentrada na aristocracia e no clero, mas não fomentou indústria, ciência ou educação, antes demonstrou a incapacidade para transformar riqueza em desenvolvimento. A persistência de estruturas políticas feudais e clericais, a Inquisição e o dogmatismo, fatores impeditivos do desenvolvimento do espírito critico, do progresso intelectual, do pensamento livre e da ciência. Ou ainda o centralismo político que impediu a participação popular, o pluralismo e a evolução das instituições.
Hoje, apesar de todo o progresso registado, encontramos na vida política, económica e social traços que parecem ecos deste passado histórico que nos assombra. A dificuldade em persistir nos investimentos que requerem escala ou prazos longos revela-se nas permanentes cedências a atividades de curto prazo, como o turismo, e na impaciência com os investimentos em ciência. Os debates políticos dominados por opiniões superficiais em que predomina o discurso emocional ou identitário em vez da argumentação racional, como tem sido o debate sobre a imigração. A incapacidade para negociar, para estabelecer acordos ou compromissos políticos e construir consensos, ou os avanços e recuos na estabilização das CCDR, reveladores da dificuldade de descentralizar, de distribuir e de respeitar os diferentes poderes.
Como dizia Antero, "respeitemos a memória dos nossos avós: mas não os imitemos".

