As contas oficiais da Casa Branca estão recheadas de imagens geradas por inteligência artificial sem a menor preocupação com o rigor ou a diplomacia e o sentido de Estado. A composição de Donald Trump ao lado de um pinguim, com a bandeira da Gronelândia em fundo, segue a mesma lógica: assume o erro geográfico básico ou os detalhes artificiais, em nome da provocação e da viralidade. Neste caso, Trump não abraça o pinguim ao acaso. Aproveita um meme que já estava a ressoar na internet, batizado como "pinguim niilista".
A imagem original é de um documentário de 2007, na Antártida, em que o autor descreve o comportamento invulgar de um pinguim a afastar-se do grupo, uma solidão que combina mal com uma espécie que vive em bando. Subitamente, a comunidade online viu nesta imagem a metáfora para a capacidade de escolher um caminho diferente, para a busca incessante por algo melhor, para a solidão e individualismo - no fundo, para a interpretação a que cada um quiser dar significado, porque é essa a capacidade que as redes vão ampliando de transformar a banalidade numa narrativa simbólica. E se as narrativas podem ser apropriadas politicamente, podem igualmente ser exploradas por mercados financeiros. O primeiro "token" lançado a partir do "pinguim niilista" atingiu uma capitalização de mercado de cerca de 60 milhões de dólares.
No fim da linha, o pinguim é uma síntese de vários sinais dos tempos. Mostra bem o novo mundo em que nos movemos, politicamente e não só. Donald Trump vai-se rindo à vontade, mesmo que tantos ridicularizem a sua ignorância e boçalidade. E as manifestações coletivas, ainda que embrulhadas em promessas de reflexão filosófica e existencialista, mais não são do que a constante encenação de coreografias fugazes. Estamos cada vez mais sozinhos e individualistas, mas ainda assim empurrados pela manada.

