Portugal continua a tropeçar no mesmo erro: decide primeiro as obras e só depois tenta planear o território. É assim com o TGV, com os BRT e com quase todas as grandes infraestruturas que hoje se anunciam com euforia e pressa.
O caso do TGV no Porto é exemplar. A linha Rubi do metro está em obra, a convergir em Santo Ovídio, a grande interface pensada para o sul da cidade. Mas agora surge a ideia de deslocar a estação de alta velocidade para Vilar do Paraíso, ignorando o investimento já feito e toda a lógica de integração que estava prevista. É o planeamento às avessas e o mundo ao contrário.
Nos BRT, a história repete-se. Quase todos foram decididos sem reflexão suficiente sobre localização ou função urbana. Projetos que deviam estruturar a mobilidade podem acabar como obras que não servem para se tornarem nas âncoras que as cidades precisam e que o interesse público deseja. Pior: o país, por vezes, anda para trás, com a moda dos concursos "conceção-construção", que invertem o processo. Adjudica-se tudo "chave na mão" para ganhar tempo, mas os empreiteiros não têm, nem devem ter, a função de planear. Essa ausência de competências fragiliza o tempo das obras e gera, depois, altos custos para o país.
Planear é um ato técnico, que deve anteceder quem constrói. É neste tempo que se deve estudar, propor e fundamentar, para que os políticos possam decidir - a partir do qual se deveriam fazer os projetos e as obras. Quando se confunde esta ordem, o resultado é o que vemos: incoerência, desperdício e desrespeito pelos cidadãos. Em Portugal, continuamos a construir primeiro e a pensar depois. E é por isso que andamos sempre a remendar o futuro.

