O preço das casas subiu tanto que, sendo a montanha imaginária, chegará o dia que as troikas voltarão a entrar pelo país com uma fatura que nos estalará no cachaço. Pode demorar meses ou anos, mas não é possível que um apartamento em Lisboa ou no Porto seja mais caro do que no Dubai. Já vemos casas ocupadas por várias famílias, e não estou a pensar nos que vêm de fora com uma mão à frente e outra atrás, gente que aceita tudo para poder ter um trabalho, um visto ou uma esperança. Estou a pensar em famílias portuguesas que decidem "rachar" as mensalidades como no tempo em que eu era criança e a minha família materna era pobre. A avó Joaquina, para sobreviver, alugou uma divisão da casa à família da Alaíde, que tinha dois filhos e um marido de que não me lembro. No quarto independente dormia a Maria, que saía de madrugada para limpar um consultório. A Maria tinha um filho, o Mário, a primeira pessoa que vi usar sapatos com berloques, um "pintas" de bigode a quem eu cobiçava a vida de chique. Não faço ideia de como tanta gente vivia numa casa tão minúscula, mas tudo se consegue, não é? Há muitos temas que vão e voltam, mas o preço das casas, o preço dos lugares que precisamos para que a dignidade não se perca, para sermos gente, para andarmos de cabeça erguida, para nos podermos fechar por dentro, para construirmos a nossa intimidade, é um dos poucos temas que é obrigatório resolver. Sem casas que possam ser pagas por gente pobre e de classe média, dificilmente seremos um país capaz de honrar os seus cidadãos.
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