O título desta crónica não me pertence. É do Victor Cunha Rego, meu primeiro director nos jornais. Quando o cruzei, o Victor já se tinha convertido. Ia, sozinho, rezar à Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa.
Ou se não ia rezar, ia estar com Jesus numa proximidade distinta da que temos com Ele fora do templo. Porque, consabidamente, a destruição dos templos idólatras deu origem ao erguer do único e verdadeiro templo que é Cristo. Entrámos ontem, Domingo de Ramos, na Semana Maior, a mais grave da história da Humanidade. Muita gente não se apercebe do que representa, para a seriedade das suas vidas, o processo de Jesus. É a semana "da Sua prisão, tortura, condenação e morte na cruz". Todavia, e continuo a citar o Victor, "todos os dias voltamos a encarcerar Cristo, a torturá-lo, e matamo-lo com a mesma falta de piedade de todos os fariseus, de muitos governadores e de grande parte dos povos envenenados pelo medo, pela mentira e pela provocação. O processo contra Jesus continua e continuará. Ele está no meio de nós. E por isso será julgado. Hoje, como ontem, Jesus, em vez de se apoderar da nossa liberdade, como fazem os poderes políticos - e, também, muitas vezes, as Igrejas -, deixou-a nas nossas mãos, tão grande quanto a obra do Seu próprio Pai". Efectivamente - e vemo-lo a toda a hora -, "continuamos a agir como aqueles que repeliram Jesus por este não ser uma personagem "de sucesso", um "ganhador", mas humilhado, chicoteado, crucificado". Todavia, e este é o sentido último da Semana Maior, "Jesus não vacilou na sua vontade messiânica. Morreu por isso. E vive por isso". Ao incorporarmos pela fé a sua realeza (a única), estamos com Ele na cruz, essa cruz "que o investe de um reinado eterno", depois de "abandonado e desprezado pelos homens, desfigurado", afinal levando sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores (Isaías). Por isso, "o mistério da expiação do Inocente levado à cruz para aí morrer" e, em seguida, ressuscitar, é um mistério no qual "todos nós, queiramos ou não, participamos" - "a maior das consciências é essa". O Papa sublinhou tudo isto na sua homilia deste Domingo de Ramos em São Pedro. O processo contra Jesus prossegue no Seu abandono e na sua imensa solidão. Cristo, ao carregar sobre Si o pecado do mundo, "experimentou a situação mais estranha no Seu caso: o abandono, a distância de Deus. E porque foi tão longe? Por nós, não há outra resposta, para estar connosco até ao fim". E, "de lá, descerra a esperança que não desilude". A esperança contra toda a esperança.
Jurista
