Há cerca de uma semana foi notícia a morte de Sofia Corradi, conhecida como a "mãe do Erasmus". Tinha 91 anos e era professora de Ciências da Educação na universidade de Roma Tre.
Todos os estudantes do Ensino Superior sabem o que é o programa Erasmus. Poucos, porém, terão ouvido falar de Sofia Corradi e conhecerão a origem e as razões do programa. Menos ainda saberão, provavelmente, que problema Sofia Corradi procurou enfrentar quando o desenhou. Em contrapartida, muitos reconhecerão facilmente o impacto que o Erasmus teve e continua a ter na construção da União Europeia e na vida dos jovens europeus. Mais de 16 milhões de estudantes beneficiaram, desde 1987, dos acordos de intercâmbio celebrados por milhares de instituições de Ensino Superior de dentro e de fora da Europa.
Sofia Corradi quis enfrentar o problema do reconhecimento, pelo sistema educativo italiano, dos diplomas obtidos no estrangeiro. Embora ainda hoje este problema aflore teimosamente à mínima oportunidade, com o programa Erasmus e com o processo de Bolonha foi largamente ultrapassado. Bolonha, através do mecanismo de créditos criado, o ECTS, e o programa Erasmus através dos acordos e apoios à mobilidade abriram as portas das instituições de Ensino Superior a estudantes e professores de diferentes países. Abriram portas ao trabalho colaborativo no ensino e na investigação em escala inimaginável há poucas décadas.
O programa Erasmus é uma medida de política exemplar, pelo impacto transformador na construção da União Europeia, do Ensino Superior e da investigação. É exemplar, também, do ponto de vista da análise, desenho e avaliação de políticas públicas.
O programa Erasmus foi uma medida de política com o chamado efeito borboleta: o mínimo de ação para o máximo de efeito ou impacto. Nem o programa Erasmus nem o processo de Bolonha foram alguma vez anunciados como grandes reformas: apenas medidas, programas, processos. Não anunciaram ruturas nem disrupções, apresentaram-se como medidas de transformação incremental. Identificavam com clareza os objetivos e os problemas a resolver, favoreciam processos de negociação e conciliação de posições, respeitavam a autonomia das instituições, sempre num quadro amplo e rigoroso de princípios. No caso, de princípios humanistas e cosmopolitas.
Continuamos hoje a precisar de medidas solidamente ancoradas numa perspetiva humanista e cosmopolita capazes do efeito borboleta, como o programa Erasmus. Medidas incrementais, em regra, não grandes reformas geradoras de incerteza e instabilidade, que devem ser excecionais.

