Ontem, a notícia era a das queixas dos procuradores, expressas no processo Freeport, de que não tinham tido tempo de interrogar o primeiro-ministro. Hoje, é a notícia de que os procuradores titulares não confiavam na sua líder e coordenadora - e que isso mesmo fizeram saber às entidades europeias. Entretanto, soubemos também que a inclusão das perguntas que deviam ter sido feitas ao primeiro-ministro no processo que saiu cá para fora - sim, acabou o segredo de Justiça, neste caso não foi uma fuga de informação - foi negociada entre os titulares do processo e a magistrada que dirige o departamento que estava a coordenar a investigação.
Não temos nenhuma razão para duvidar destas informações - têm a mesma origem das outras, as que diziam respeito à investigação. É verdade que as primeiras conduziram o pensamento da opinião pública num sentido que foi contrário ao desfecho do caso Freeport. Mas isso tem a ver com o facto, desprezado por muitos, incluindo os próprios jornais, de essas informações terem vindo a público antes sequer de haver provas, muito antes de se perceber se esses indícios chegariam para uma acusação.
Por tudo isto, são até mais credíveis estas últimas informações, as que se seguiram ao arquivamento do processo. Porque estas informações dizem apenas respeito aos agentes que participaram no processo. Sobre eles próprios não se hão-de eles enganar muito, presumo. Daí serem mais fiáveis.
Aquilo a que temos assistido é a um strip tease voluntário, a la Big Brother. Já conhecemos, ainda que nas entrelinhas, tudo o que os vários intervenientes pensaram, sentiram, os seus desejos mais fundos e as suas frustrações. Informação que talvez agradasse a um psicanalista, mas demasiada para o público em geral, cada vez mais confuso, baralhado entre palavras de jargão judicial e procedimentos que não domina. Estupefacto, simplesmente estupefacto sobre esta Justiça que não se importa de expor desta forma todas as suas misérias.
2. Em Outubro, estreia em Portugal o documentário José & Pilar filmado pelo realizador português Miguel Gonçalves Mendes alguns meses antes da morte do escritor. O filme é uma espécie de viagem à intimidade do casal José Saramago e Pilar del Rio. Logo na apresentação, que já foi exibida ao público no Festival Literário de Paraty, para abrir o apetite, aparece o Nobel a dar uma palmada no rabo da mulher.
Eu não quero ver Saramago a dar uma palmada no rabo da mulher. Já não queria antes da sua morte e agora ainda quero menos. Por muito que me enterneça o amor desse homem pela sua mulher, a minha curiosidade é intelectual e acaba na história dessa paixão fora de tempo e do que ela operou na sua vida de escritor, resgatando-o, e atirando-o para uma vida criativa. Tudo o mais que avance sobre os pormenores biográficos, cheirar-me-á a grande proximidade das revistas cor-der-rosa, que dispenso.
Agora, o que me vai mesmo divertir, serão os intelectuais do costume, que desprezam e falam de cima sobre as socialites que fazem da sua exposição pública a sua vida, a babarem-se perante os pormenores mais íntimos da vida deste casal. Como se ser Nobel os impedisse de cair no mesmo ridículo.
