Há uma parte de mim que, com o tempo, se tornou totalmente "geração Z". É que, apesar de ser da década de 80 e, portanto, uma "millennial", revejo-me no desprezo desta geração de adolescentes pelo ato de telefonar.
Essa ideia "boomer" de que ligar à pessoa demonstra delicadeza está, para mim, completamente ultrapassada. Delicadeza é não ligar (entenda-se "chatear"), a não ser que seja estritamente necessário e, nesse caso, é obrigatório enviar uma mensagem antes a perguntar se é boa altura. Excluem-se, obviamente, os telefonemas para pessoas muito íntimas, ou as chamadas em dia de aniversário (sendo que, nesse caso, são de evitar ao máximo as horas de refeição).
Ligar a pessoas que não conheço tornou-se impensável. Existem emails para questões de trabalho, WhatsApp para questões urgentes e até dá para gravar áudios de voz para coisas difíceis de explicar, escrevendo. O que não é fixe é ligar sem avisar a perguntar/pedir coisas a uma hora aleatória do dia da pessoa, invadindo a sua rotina de forma inconveniente. Ainda por cima com perguntas/pedidos que implicam saber/decorar datas e horas, avaliar disponibilidades de agenda ou tomar decisões ponderadas. É que, como não trabalho num escritório ou com horário fixo, quem me liga sem aviso apanhar-me-á muito provavelmente no supermercado ou a dar banho à criança, sem qualquer noção do dia da semana, quanto mais se numa quarta-feira de maio vou poder estar em Setúbal. Enquanto que por email ou mensagem, posso decidir a melhor hora para responder, pensar calmamente na resposta e ficar com o registo dos detalhes do compromisso.
E para os leitores que estão a pensar que posso simplesmente não atender, ignorando a chamada, sou obrigada a responder, aludindo à segunda coisa em mim que se tornou irremediavelmente "geração Z": compras online. É que, sobretudo desde a pandemia, perdi a paciência para ir a lojas e, como tal, de livros a roupa de criança, encomendo tudo. Acontece que os carteiros modernos, desses que trazem as encomendas, não tocam à campainha sem ligar antes a saber se estamos em casa (não me perguntem porquê) e, assim sendo, sempre que vejo um número desconhecido (ao contrário das pessoas sensatas) atendo achando que é o senhor da transportadora (mesmo que não esteja à espera de nada, por mero automatismo). Ora, quando é um desconhecido a falar de trabalho pela via que manifestamente me parece mais desapropriada, cresce a adolescente interior, de olhar condescendente e suspiro fundo e, contrariando a vontade de devolver um "ok boomer" enfadado, acabo por pedir delicadamente à pessoa que me envie um email. Mas mesmo assim, quando sentada à secretária, na hora apropriada, me preparo para responder, ainda resta uma leve má vontade e um certo rancorzinho mesquinho e indelével.
*Música

