"No aperto e no perigo se conhece o amigo". A voz popular assim vaticina e, com um país virado do avesso pelas sucessivas intempéries, esse amigo, pilar e confidente nas horas negras, tem sido o autarca em muitas povoações do país. É justo que se reconheça o trabalho e o empenho, noite e dia, dos eleitos locais que procuram tetos condignos para as centenas de pessoas forçadas a sair de casa, que ajudam a recuperar o que a tempestade Kristin destroçou, que garantem um pouco de luz num país onde milhares continuam às escuras, que asseguram uma linha de vida a quem precisa de eletricidade - e que, incompreensivelmente, continua a não a ter - para manter os equipamentos de saúde ativos, que procuram sensibilizar as seguradoras para anteciparem o dinheiro dos prejuízos segurados, que são a voz de milhares de anónimos, encharcados de aflição, a braços com os danos das intempéries... É o único braço do Estado que efetivamente chega a todo o lado, mesmo com as grandes figuras do país - o primeiro-ministro e o presidente da República - a lançarem-se em incursões bem-intencionadas, mas inócuas pelo território devastado. Não é de sorrisos e de palmadas nas costas que os lesados das intempéries precisam. É de apoios desburocratizados e céleres, é de ajudas que, vistas na letra de lei, não sejam diferentes do que foi anunciado, é de infraestruturas que não falhem sempre que chove com intensidade ou há rajadas de vento. E é profético que tudo isto aconteça no ano em que se assinalam os 50 anos do Poder Local. Se há momento em que resulta claro a importância do Poder Local em Portugal, é neste período sombrio. Não espanta, por isso, que se ouça, de novo, falar de regionalização.
Leitura: 2 min

