Quem é professor sabe bem a importância das bases do conhecimento para uma aprendizagem sólida e consistente. Não acontece o mesmo na pirâmide social. Nem sempre quem está no topo dá a devida atenção a quem se encontra nas camadas abaixo. No entanto, hoje, mais do que nunca, é preciso atender a todos, porque o exercício do poder desenvolve-se cada vez mais em rede.
Os média noticiosos constituem uma relevante plataforma de observação da realidade social. Esta semana, três revistas de referência destacam temas que merecem reflexão, sendo interessante o cruzamento de perspetivas que lhes é comum.
A "Time" coloca em capa o seguinte título: "as pessoas e a IA". O enfoque incide na ansiedade que cidadãos de diferentes classes e profissões sentem em relação a um desenvolvimento tecnológico que já não controlam. Embora em 2025 tenha escolhido os arquitetos da inteligência artificial como Personalidade do Ano, esta revista norte-americana dá agora conta de um movimento que parte da população local para enfrentar o poder colossal de gigantes tecnológicos. O motivo deste descontentamento é a multiplicação de data centers: os EUA contam já com quatro mil estruturas deste tipo, às quais se somarão em breve mais três mil.
Este crescimento acelerado de estruturas de armazenamento de dados é capa desta semana da revista "Courrier International", explicando-se com detalhe as implicações ambientais, energéticas e sociais que esta expansão provoca. Diante deste cenário, a revista "Time" noticia a emergência de importantes sinais de resistência popular: vários ativistas exigem regras claras e restritivas, políticos locais já tornaram a limitação de data centers uma bandeira eleitoral e líderes religiosos alertam reiteradamente para os efeitos emocionais e espirituais desta transição tecnológica.
Na mesma linha de valorização das bases, a "Newsweek" destaca a estratégia política do líder do Partido Democrata centrada no fortalecimento das bases do seu partido. O objetivo é não apenas conquistar lugares no Congresso nas eleições intercalares deste ano, mas também apoiar candidatos em eleições estaduais e locais, valorizando o conhecimento que têm das suas comunidades.
O paralelismo entre estes dois campos - tecnológico e político - estende-se a muitos outros domínios e deixa um ensinamento evidente: o poder que se exerce sem atenção às bases é sempre instável. No fundo, a lição é simples, mas frequentemente esquecida: sem bases firmes, não há pirâmide que resista. Nestas alturas, lembro-me sempre do livro de Robert Fulghum: "Tudo o que devia saber na vida aprendi no jardim de infância".

