Nos EUA centenas de vítimas foram sendo descredibilizadas, pagando caro a grande coragem que tiveram em denunciar Epstein e a sua teia de poderosos. "Porque é que as mulheres não denunciaram em tempo útil?", perguntam muitas vezes os cínicos de bancada, quando aparece uma qualquer denúncia de assédio. Pois, não denunciam porque a caixa de emails de um homem morto vale mais que a palavra de centenas de mulheres e, por cá, não só são enxovalhadas por todos os "bros" de serviço e pela turba da Internet, como depois veem o alegado agressor premiado com um espaço de comentário político em prime time (depois de fazer uma birra, acusando os jornalistas de terem arruinado a sua vida em plena campanha eleitoral)!
Cotrim será o Marques Mendes dois, que por sua vez tinha sido o sucessor de Marcelo, numa considerável linhagem de homens de Direita que falam em horário nobre na TV portuguesa sem qualquer contraditório. Em 2023 o Media Lab do ISCTE divulgou um estudo que identificava claramente esse viés no comentariado político dos canais portugueses. Desde então, só piorou, não apenas com a dispensa de mulheres de Esquerda como Raquel Varela ou Catarina Martins, mas sobretudo com um reforço dos painéis com comentadores de Direita.
Na SIC Notícias, em particular, temos Miguel Morgado a solo muitas vezes, como também na rubrica "Linhas direitas", devidamente acompanhado de um representante da IL e outro do Chega, além dos seniores Júdice e Maria João Avillez, entre muitos outros pontuais representantes da suposta maioria sociológica de eleitores de Direita, para chegarmos a Cotrim todos os domingos ao serão.
Só nas duas últimas semanas, tivemos inúmeras entrevistas "exclusivas" a Ventura, seguidas de espaços de comentário que fazem orbitar em seu redor todo o debate político nacional. Ainda assim, uma maioria sociológica de democratas deu a vitória a Seguro, mostrando que dois em cada três portugueses rejeitam Ventura e o seu populismo de extrema-direita, imunes à sua omnipresença no espaço mediático.
Está na hora dos responsáveis editoriais da informação televisiva fazerem uma autoanálise, porque o empolamento desproporcional de uma só força partidária, além de ser prejudicial ao pluralismo e à democracia, não representa o espectro de eleitores do nosso país. Eleição após eleição, o Chega perde, mas os média preferem dizer que cresce, numa profecia autorrealizável. Nem com quase 70% de rejeição conseguem dizer que Ventura é derrotado.
Sendo preocupante pensar que, em plena crise da imprensa, com o perigo de falência de muitos órgãos independentes, as TV reproduzem a lógica das redes sociais (enviesadas e cheias de desinformação), indo atrás dos soundbytes e de quem faz de isco para as audiências. Ao mesmo tempo que até a Lusa parece estar em perigo, porque Montenegro, não satisfeito com o que tem feito à RTP, quer maior controlo político e maior centralização de meios na agência de notícias nacional. Fiquemos atentos.

