A procissão ainda vai, infelizmente, no adro, mas o efeito da guerra nos nossos bolsos já pesa. O disparo no preço do crude atirou os combustíveis para valores astronómicos. O crescimento económico aguardado para o pós-pandemia será uma miragem. A inflação galopa. Os bens de primeira necessidade encarecem. E por aí fora, num movimento conducente a uma tempestade mais do que perfeita.
Às gigantescas filas para encher o depósito nas gasolineiras respondeu o Governo com um carinhoso voucher de 20 euros. Era poucochinho. Desde logo, porque, fruto das burocracias e incómodos, só um em cada quatro automobilistas usa a ajuda. Sim, porque de uma ajuda se trata: o Estado não nos dá nada - apenas devolve uma pequena parte do que gastámos.
Circunstâncias excecionais exigem mais arrojo. É preciso ir ao ponto - e o ponto está na malfadada carga fiscal. Perto de 60% do preço de venda dos combustíveis corresponde a impostos, no caso da gasolina, e a 50%, no caso do gasóleo. Uma brutalidade. Dá nisto: só em janeiro, o Estado encaixou mais 47,6 milhões de euros de impostos, em comparação com o mesmo mês do ano passado. É usura e injustiça. Usura, porque é coisa de país rico, que não somos. Injustiça, porque, sendo cegos, IVA e ISP prejudicam mais quem menos tem.
Pressionado, o Governo decidiu aliviar o IVA um bocadinho. Sabe a pouco. O Estado está a engrossar a receita há seis meses (o crude sobe desde setembro), aproveitando para fazer gestão orçamental. Não lhe ficaria mal, perante a escalada do custo para o consumidor, fazer regredir o desconto até essa altura. Os especialistas em Finanças desenham equações desse tipo num instante.
*Jornalista
