Como vereador do Ambiente da Câmara Municipal do Porto, no início deste século, tive a responsabilidade de emitir as chamadas licenças especiais de ruído, que autorizavam atividades ruidosas, a título excecional, para além dos horários legalmente estabelecidos. Nessa altura, estavam a decorrer as obras das primeiras fases do metro, que, por razões de segurança decorriam 24h por dia. Dado o transtorno que, naturalmente, esta situação causava aos moradores, tive, juntamente com responsáveis da Metro do Porto, inúmeras reuniões presenciais com os moradores. Onde esclarecíamos a necessidade da continuidade das obras, analisávamos o seu impacto na vida das pessoas e tomávamos decisões para o mitigar - várias famílias foram realojadas temporariamente em hotéis a expensas da Metro.
Tenho pensado nisso quando vejo, agora, que 14 famílias do bairro da Associação de Moradores de Massarelos foram contactadas pela Metro para deixarem temporariamente as suas habitações (por um período de três meses), face ao risco de queda de objetos decorrente da construção do tabuleiro da Ponte Ferreirinha (que fica sobre estas casas). Facto que, naturalmente, estava previsto desde o início da obra, mas que só agora foi comunicado, de uma forma administrativa e sem que qualquer responsável da Metro ou autarca (da Câmara ou da freguesia) tivesse dado a cara perante os moradores. Esta situação mostra várias coisas: o erro da escolha do local da ponte (que, no anterior PDM estava prevista para jusante, numa zona em que nenhuma casa ficava por baixo) e que, efetivamente, vai tirar qualidade de vida a centenas de moradores. Fica também evidente a falta de sensibilidade social da Metro do Porto na forma como trata do assunto. A completa ausência do executivo de Pedro Duarte e da Junta da freguesia de Massarelos que, aparentemente, andam a leste dos verdadeiros problemas da cidade e da necessidade de defesa dos seus cidadãos.
Mas esta situação coloca, também, algumas questões: os moradores dos prédios situados mais a sul e que vão ser "sobrevoados" pela ponte também vão ser desalojados? A marginal também vai ser interrompida temporariamente? Questões a que a Metro e a Câmara devem responder rapidamente.
Entretanto, exige-se que, numa obra de tantos milhões de euros (e todos sabemos que serão bem mais do que os previstos!) não se disponibilizem, apenas, tostões aos que são sacrificados ao interesse comum. Estes moradores têm de ser tratados com dignidade. O que implica que mereçam o respeito de não serem esquecidos pelos responsáveis autárquicos da cidade.

