Ódio: a máquina que nos desumaniza
Vivemos tempos em que o ódio, camuflado em discursos de opinião ou piadas de mau gosto, se espalha como uma epidemia. Em Portugal, para muitos brasileiros não brancos, esse ódio não é apenas uma ideia distante. Ele está nas microagressões diárias, nas expressões veladas, nos silêncios desconfortáveis.
O preconceito disfarçado de “brincadeira” ou “cultura local” mina a humanidade de quem chega para trabalhar, estudar e construir um futuro. Essas pequenas violências corroem, transformam quem as sofre em alvo e quem as perpetua em cúmplice.
A desumanização não é um acidente, mas um processo alimentado pela ignorância e pela recusa de olhar para o outro como igual. Para quem veio do Brasil - onde a luta contra o racismo é urgente e visível -, encontrar o mesmo silêncio cúmplice em terras portuguesas é doloroso. E é um chamamento: não podemos aceitar.
A resistência começa em pequenos atos: falar, denunciar, ocupar espaços de poder. Recusar a redução ao silêncio, porque o silêncio, esse sim, desumaniza. E se a sociedade insiste em ignorar, cabe-nos lembrar: somos tantos e tão plurais, que o futuro de Portugal e do Brasil depende de nos vermos como iguais. Só assim, juntos, podemos desfazer a máquina que insiste em roubar a nossa humanidade.
Essa luta não é apenas de quem sofre, mas também de quem tem o privilégio de não sentir o peso da discriminação na pele. Portugueses e brasileiros brancos precisam de compreender que a neutralidade não existe: ao calar, validam o sistema que oprime. É preciso um esforço ativo para reconhecer os privilégios herdados de séculos de colonização e escravidão e usá-los para abrir portas, ouvir vozes silenciadas e construir pontes onde antes havia muros. Porque a verdadeira humanidade só existe quando é para todos.

