Corpo do artigo
Em Beja foi revelada uma rede de exploração de imigração ilegal. Não sei se já tiveram oportunidade de ver na televisão alguma notícia sobre o assunto, mas se acompanharem pela CMTV, são aquelas que acabam a envolver ameaças à integridade física dos repórteres por parte dos locais. Dos 17 detidos por suspeitas de pertencerem a uma rede criminosa de auxílio à imigração ilegal, 10 são militares da GNR e um é agente da PSP.
Segundo o Ministério Público, esta rede controlava cerca de 500 trabalhadores, a maioria em situação irregular, e que para além de não terem contrato de trabalho, recebiam abaixo dos valores de mercado para os trabalhos agrícolas que faziam. Numa jornada completa de trabalho, também só estariam autorizados a descansar 15 minutos. Eu desafio qualquer um a dizer que, depois de se ter achado boa ideia levar aquela maionese caseira na lancheira para o almoço, nunca tenham tido uma cólica que fizesse estar trancado na casa de banho, pelo menos, 45 minutos. Alegadamente, desta rede faziam também parte pessoas civis, donas das propriedades e dos alojamentos nauseabundos onde estes trabalhadores eram alocados. As forças de segurança, a troco de compensações, fechariam então os olhos a estas situações e ajudavam a que elas se perpetuassem. A polícia judiciária intitulou esta operação como "Safra Justa", uma expressão agrícola que significa colheita razoável mas que depois de perceber os contornos da mesma, acho que o nome deveria ter sido "Safra Deprimente".
Sair da sua terra para lutar por melhores condições, acabar a ser subjugado mental e fisicamente, a trabalhar muito, a dormir amontoadamente com outros corpos, a sentir que não se tem alternativa porque, em muitos casos, os documentos que têm são apreendidos e as forças que devem garantir segurança e proteção são elas mesmas quem mais proveito tiram. Serem a força motora que contribui para um negócio lucrativo quando se é tratado tão indignamente por todos e que só existem publicamente quando a extrema-direita os mete em cartazes para os atacar e humilhar ainda mais, vou-vos contar. É preciso ser um tipo especial de ser humano para suportar tudo isto e ainda dizer "Portugal é um país extraordinário e tenho muita sorte de aqui estar". E o mais espantoso de tudo isto é que é possível que as pessoas que se aproveitam votem no partido que os desumaniza ainda mais. Até faz sentido. É capaz de aliviar a consciência, porque afinal não são humanos que exploram.
Os alertas para estas situações não são de hoje. Eu sou do tempo em que o PCP, quando ainda tinha uma bancada parlamentar com um número elegível para reservar um menu de grupo com sangria à descrição, alertou para a escalada deste problema. Mas nunca ninguém ligou, porque a verdade é que este tema da escravização de pessoas imigrantes não é atraente. São pessoas com uma pele mais escura, não falam a nossa língua, usam roupas estranhas, as suas comidas têm imensos condimentos e fazem uma coreografia a rezar diferente da nossa, que é só sentar e levantar na missa. E por isso ninguém quer saber. A inclusão dá trabalho e é muito mais fácil fazer um like num vídeo duvidoso que um tipo do Chega partilhou, enquanto se rói uma framboesa vinda de uma estufa do Alentejo ou se rega uma posta de bacalhau com o sumo da azeitona que estas pessoas apanharam.
E a verdade é que basta uma pesquisa rápida no Google para percebermos que isto acontece com portugueses lá fora. E, naqueles lugares, este tema também dificilmente terá alguma atenção mediática e política porque, surpreendam-se, também nesses países não faz ganhar votos. Mas quando o líder de extrema-direita aparece em plena Assembleia da República a manifestar-se contra os cravos, era bom que alguém olhasse para isto e se manifestasse contra estes.
A verdade é que este tema da escravização de pessoas imigrantes não é atraente. São pessoas com uma pele mais escura, não falam a nossa língua, usam roupas estranhas, as suas comidas têm imensos condimentos e fazem uma coreografia a rezar diferente da nossa, que é só sentar e levantar na missa. E por isso ninguém quer saber.

