Concluí que em muitas semanas do ano oiço que o lugar das mulheres é na cozinha. É uma espécie de chuva miudinha, que começa despercebida, e se alastra e apodrece as paredes. "É uma brincadeira", explicam-nos quando ripostamos, sem avental nem cheiro a estrugido. Mas esse pinga-pinga desditoso, qual térmita, vai corroendo os pensamentos. A propósito do homicídio de mais uma mulher em contexto de violência doméstica conversei num grupo de amigos sobre a prevalência deste crime em Portugal e, para minha surpresa, os casos que me retrataram eram maioritariamente de pessoas mais novas. Relações pavorosas em que jovens rapazes não as deixavam vestir calções curtos, implicavam com as amigas, isolavam a sua presa, tratavam as namoradas "abaixo de cão". As descrições dizem muito sobre uma nova geração de retrógrados, pior, de criminosos afetivos. Com tanta luta, empoderamento, como pode isto continuar a acontecer? "Submissão emocional", defendeu uma das mulheres no grupo, criticandoainda a influência de grupos extremistas que querem aprisionar as mulheres nos metros quadrados que distam entre o fogão e a banca da loiça. Quem cria filhos, vê-se na urgência de os colocar do lado certo do desenvolvimento social, numa era em que defender a liberdade de meninas e mulheres de fazer o que bem lhes apetecer é quase rotulado como militância terrorista às Brigadas Vermelhas. No ano passado, até novembro, 24 mulheres foram assassinadas, doze eram mães, e 40 sobreviveram a tentativas de homicídio. Edite tinha dois filhos menores, um com 12 e outro com oito anos, e foi morta na terça-feira com quatro tiros. Ia trabalhar quando foi emboscada. Não foi amor, foi obsessão, posse? Estes feminicídios são um dos resultados de um sistema patriarcal, que chove miudinho nas redes sociais controladas por algoritmos misóginos.
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